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quinta-feira, 11 de junho de 2009

DLP-IV - INDULGÊNCIAS, DECLARAÇÃO DE GUERRA, REAÇÃO DA IGREJA, DEBATE EM LEIPZIG E FÚRIA DE LUTERO

CAPÍTULO IV

Índice do Livro


A ENTRADA EM CENA

Dada a índole turbulenta de Lutero, compreende-se logo que as suas novas doutrinas enunciando: - SÓ A BÍBLIA É NECESSÁRIA, - e É A FÉ QUE SALVA – não ficariam encerradas no limitado espaço de sua cela monacal. O frade revoltoso não era homem de meias medidas; depois de cair, necessariamente arrastaria outro consigo, pois as idéias concebidas na leitura falsificada da Epístola ao Romanos tornaram nele logo uma verdadeira OBSESSÃO, passando a informar toda a sua vida e as suas atividades.

Faltava apenas uma ocasião azada para serem manifestadas em público. E esta circunstância não tardou. Foi a pregação das indulgências na Alemanha.

Conforme confessou o próprio reformador, pouco significaram para ele tais benefícios espirituais, chegando mesmo a dizer ignorar o que fosse uma indulgência (W. W. I. 65).

Analisemos, aqui, o desenrolar dos fatos intitulados por nós: A ENTRADA DE LUTERO EM CENA.

1. A QUESTÃO DAS INDULGÊNCIAS

Havia tempo que a Santa Sé projetava construir em Roma uma grande basílica em honra de São Pedro, em substituição à velha igreja do mesmo nome.

A idéia do Papa Júlio II, em 1506, era fazer que a catolicidade contribuísse para levantar-se o monumento que devia ser como que a manifestação pública da unidade católica; o projeto ultrapassava so mais suntuosos edifícios do mundo. Para que os católicos de todo o mundo se interessassem pela obra comum, o Papa concedeu uma indulgência particular a todos os cooperadores desta empresa por meio de esmolas.

Já havia tal indulgência sido pregado em quase todos os países, com exceção da Alemanha, devido às grandes somas que, de direito, tenha o império germânico de dar à Roma, o que anteriormente suscitara certo descontentamento.

Julgou o Papa Leão X que tal animosidade desaparecera, podendo, também a Alemanha contribuir, opor seu turno, para ajudar à Basílica de Roma, e, por isso, mandou publicar a Bula das indulgências em março de 1515. Eram condições para se lucrar a indulgência: confissão, comunhão, um dia de jejum, a visita a sete igrejas ou altares e um esmola para a Basílica em construção.

Foi nomeado o arcebispo de Mainz comissário desta indulgência, devendo ela entrar em vigor na Quaresma de 1517. O arcebispo nomeou como vice-comissário do arcebispado de Magdeburgo o dominicano João Tetzel, que já havia exercido a mesma função em Mainz, no ano anterior.

Como desempenhou o padre Tetzel este ofício?...

O dominicano era um orador popular, talentoso, mas, segundo consta das informações de Grisar, cometeu exageros ao explicar o modo de aplicação das indulgências aos vivos. Há quem afirme que os desvios nas expressões do pregador em nada afetaram a sua doutrina, sempre exata.

No ensino eclesiástico, a INDULGÊNCIA É A REMISSÃO DA PENA TEMPORAL DEVIDA AOS PECADOS JÁ PERDOADOS, benefício espiritual que a Igreja concede sob certas cláusulas a quem está em estado de graça, aplicando-lhe os méritos infinitos de Jesus Cristo, e os superabundantes de Maria Santíssima e dos Santos, os quais constituem o tesouro da Igreja.

A indulgência plenária perdoa toda a pena temporal, enquanto a parcial apaga apenas um parte dela. Para se lucrarem as indulgências, importa estar em estado de graça e cumprir o que elas prescrevem.

Em virtude da Comunhão dos Santos, as indulgências podem geralmente ser aplicadas às almas do purgatório, sem que, entretanto saibamos com certeza os frutos praticamente a elas comunicados. Tal aplicação, de fato não depende só da Igreja, senão da vontade de Deus. Depois da revolta de Lutero, e para motivá-la, inventaram os protestantes mil e tantas calúnias contra Tetzel e o objeto de suas pregações, mas os ataques foram sem fundamento e sem provas.

2. A DECLARAÇÃO DE GUERRA

Tetzel não falou em Wittemberg, mas na Saxônia, em Juterbog; desta sorte, Lutero não ouviu pessoalmente a tal pregação, conhecendo-a através das informações de seus alunos e amigos.

Lutero se inflamou, achando favorável a ocasião para agir.

E logo começou, decidido a todos os excessos, com todo o ardor de seu temperamento impetuoso, ávido de proezas e novidades.

Na véspera da festa de Todos os Santos, orago da Igreja dos Agostinianos, uma multidão se acotovelava na praça para ganhar a indulgência da Porciúncula, quando Lutero apareceu com 95 teses contrárias às indulgências, as quais afixou à porta do templo. Era a declaração de guerra religiosa.

O novo herege levantou-se contra o ensino da Teologia, declarando não terem as indulgências valor algum perante Deus, não passando de apenas canônicas impostas pela Igreja. Além disso, negou a doutrina referente ao tesouro da Igreja (*).








Lutero comparava as indulgência a
Uma Rede de Pescador

Finalmente pergunta Lutero: por que o Papa não constrói a basílica de São Pedro com seu próprio dinheiro, ele que possui riquezas maiores do que o mais abastado Cresus, em vez de recorrer aos fiéis pobres?...

No mesmo dia o revoltoso remeteu as teses ao arcebispo de Mainz, aconselhando-o a substituir a pregação das indulgências por outras, para evitar se escrevesse contra esta doutrina.


furiosamente
atacado Por Lutero

Tetzel, prevendo a significação e a rápida propaganda das teses de Lutero, pôs-se logo em campanha contra o adversário. Para este fim, publicou uma lista de 106 proposições por ele defendidas, em 20 de janeiro de 1518, publicamente, diante da Universidade de Francfort. Lutero estava com as armas e, em vez de refletir e comparar as doutrinas expostas por ele com as do seu adversário, começou a atacar com furor mal contido a doutrina escolástica sobre a confissão, a contrição e a satisfação.

Aos amigos que lhe observaram a excentricidade da nova doutrina, Lutero retrucou com aquela sua teimosia costumeira:

“Pouco me importa alguns me considerarem herege; são cérebros escuros que mal cheiraram a Bíblia”.

Permaneceu Tetzel firme e com perspicácia e preparo teológico que o exornavam, compreendeu logo profundamente a perversidade das teorias luteranas.

Enquanto muitos teólogo viram nestas discussões uma simples questão de palavras, Tetzel sentia estar em jogo uma verdadeira heresia, cujas conseqüências abalariam a fé em muitos católicos.

De fato, a questão das indulgências foi desaparecendo rapidamente e, já em maio de 1518, toda a discussão se deslocara para a autoridade da Igreja. A novidade se espalhou célebre no meio do povo, que apreciava sobretudo a crítica de certos deslizes reais ou fictícios entre o clero e a instigação contra o pagamento de qualquer tributo ou sustento porventura exigido pela Igreja.. O povo não atinou logo não se trata aqui simplesmente de criticar abusos, mas ser desejo dos rebeldes um rompimento completo com a doutrina e a autoridade da Igreja.

(*) AFINAL, LUTERO NEGAVA OU NÃO NEGAVA AS INDUGÊNCIAS? - Vejam o que ele escreveu na Tese 91: -
"Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido” (Tese 91)
3. PRIMEIRA REAÇÃO DA IGREJA

As idéias revolucionárias do heresiarca ecoaram na Alemanha inteira e abalaram a crença de muitos, tanto mais que o terreno se achava admiravelmente preparado para receber qualquer semente de protesto e insurreição.

Efetivamente, o século XVI era de uma quase universal decadência, e a Religião divina não escapava em sua parte material, ao influxo de ambiente tão corruptor dos costumes.

Havia abusos nos governos, e até no governo subalterno da Igreja, devido à ambição das honrarias, da fortuna e das posições. A doutrina católica não vacilou jamais, por ter as promessas divinas; o seus dirigente, porém seus membros são homens e, como tais, susceptíveis de se deixarem impregnar pelas idéias dos lugares, onde nascem e onde são educados.

Infelizmente, muito não sabem distinguir entre DOUTRINA e PESSOA, confundindo esta com aquela e atribuindo à primeira, - o que aconteceu com Lutero, - o que é exclusivamente da segunda.

É o que aconteceu com Lutero e seus asseclas, admitindo-se estivessem em boa fé nesta guerra contra a Igreja.

Havia defeitos na vida dos católicos; não os havia, porém, no ensino eclesiástico.

Pretendiam os descontentes atacar os abusos; podiam fazê-lo. Mas, ao invés, atacaram a doutrina, deixando subsistirem os abusos que cresciam cada vez mais, demolindo-se o verdadeiro ensino em proveito das pessoas ou dos seus erros.

Foi esta a grande aberração, ou a triste confusão de Lutero. O arcebispo de Mainz, D. Aberto de Brandeburg, vendo o erro tomar vulto, denunciou-o a Roma em janeiro de 1518,

Em 3 de fevereiro daquele ano, o Papa Leão X escreveu ao substituto do Superior geral dos Agostinianos, encarregando-o de persuadir Lutero, seu súdito, a desistir de suas opiniões perigosas ou erradas, para evitar que desta faísca do erro resultasse um incêndio, impossível talvez de se apagar mais tarde.

Infelizmente, já não era uma simples fagulha, mas uma fogueira que lavrava. Parece ter Lutero encontrado em sua ordem vários cúmplices, partilhando das suas idéias e erros.

A única medida, que se conhece tomada pelos seus superiores, foi a de impedir a reeleição de Lutero como vigário de distrito.

Não continuou em seu cargo o monge deposto, prosseguindo, porém, em sua revolta, atacando a doutrina e a autoridade da Igreja Católica.

4. LUTERO E O PAPA

Em face da persistência de Lutero, os Dominicanos o denunciaram outra vez a Roma.

O monge rebelde receava a excomunhão e, prevendo-a, procurou evitar a impressão, que necessariamente ela exerceria sobre o público.

Em maio de 1518 pregou sobre as CONSEQÜÊNCIAS DA EXCOMUNHÃO, procurando mitigá-las o mais possível e dispor o espírito da população em seu favor.

Na mesma ocasião mandou ao Papa Leão X uma defesa de seus ensinos sobre as indulgências, queixando-se das acusações injustas a ele feitas.

Conta, a seu modo e de maneira falsa, a causa desta luta, declarando “Não posso retratar-me”. Apesar desta teimosia, declarou pela mesma carta escutar a voz de Leão, como sendo a voz de Cristo, que fala e dirige por ele:

“Faze-me viver e matar, chama, aprova, rejeita como te agradar” escreve ao Papa; e, ao mesmo tempo, em linguagem desabrida e com revoltante cinismo, escreve a um amigo: “Pouco me importa agrade ou não ao Papa, homem como os outros. Houve até Papas que não só cometeram erros e crimes, mas até monstruosidades. Eu escuto o Papa como Papa, quando ensina as leis da Igreja, de acordo com os Concílios, mas não quando ele fala por própria cabeça” (Obras de Lutero, Weimar).

Julgou a Santa Sé de seu dever adotar novas providências contra ele. Chamou Lutero a Roma, onde devia apresentar-se dentro de 60 dias.

Este estava resolvido a não obedecer e procurou proteção junto do príncipe Frederico e do imperador Maximiliano.

Solicitou a Frederico que o chamasse perante o Conselho do reino, então reunido em Ausburgo, por querer ser julgado por juízes alemães.

Para não irritar os espíritos, o Papa lhe concedeu permissão de comparecer em Augsburgo, ante o legado da Santa Sé, o Cardeal Cajetano, com faculdades para tratar do assunto.

Catedral de Augsburgo


Em 7 de outubro chegou Lutero a Augsburgo tendo ali várias conferências e entrevistas com o príncipe Frederico e o Cardeal, nos dias 12 e 13 do mesmo mês.

O enviado papal mostrou-se bondoso e paciente, e, tendo-lhe Lutero declarado estar pronto a seguir em suas palavras e obras, a doutrina da Igreja de Roma, indicou-lhe o dignitário os dois erros notórios: a negação dos tesouros da Igreja como depositária das indulgências, e a opinião da exclusividade de salvação pela fé somente.

O cardeal não admitiu discussões, já que os dois pontos se opunham formalmente à doutrina da Igreja. Lutero respondeu ao legado:

“Não posso retratar-me, se não me provarem ter ensinado qualquer coisa contrária às Escrituras, aos Santos Padres, às decisões dos Papas ou do bom senso”.

A entrevista terminou infrutífera; o monge revoltoso protestava obedecer em tudo ao Papa, enquanto ao mesmo tempo não concordava com ele em nada.

Dali se retirou Lutero para a residência onde se hospedava, mas, com espanto geral, fugiu secretamente de Augsburgo, na noite de 20 para 21 de outubro, regressando a Wittemberg, onde achou apoio na pessoa do seu superior Stuapitz. Lutero, depois de ter feito um papel tão triste e covarde, sentia-se satisfeito em ver-se longe de Augsburgo, onde não encontrará o esperando apoio.

Em 28 de novembro, para desculpar-se, apelou da sentença do Papa, para um Concílio geral.

Era apenas um meio de ganhar tempo.

Lutero estava definitivamente perdido e cada vez mais teimoso em suas idéias de revolta.

Uma carta a seu amigo Lenk, de Nuremberg, nos transmite as suas verdadeiras idéias e o seu ódio ao Papa.

“A luta não está nem começada”, escreve ele, “longe de estes senhores poderem esperar o fim. Remeto-lhe a relação dos fatos de Augsburgo, para ver que, como julgo, o verdadeiro Anticristo de que fala Paulo reina na Sé de Roma; penso poder provar que ele é pior que os turcos” (Enders Correp. I. 316-II/12/1518).

Quem fala deste modo está decidido a continuar no erro e segui-lo até o fim.

Lutero prosseguirá com seus discursos inflamados de insubmissão e um dia exclamara cheio de amor próprio:

“Roma pode experimentar condenar-me, mas Cristo, por sua vez, jamais se afastará de mim” (Cartas I. 30,.320 a Staupitz 13 dez.1518).

5. A DISCUSSÃO DE LEIPZIG

Exteriormente a luta acalmara um pouco.

Roma protelava, aguardando a conversão do filho pródigo.

Tendo falecido o imperador Miximiliano, em 12 de janeiro de 1519, foi só depois da eleição do seu sucessor Carlos V (out. de 1519) que o processo contra Lutero foi retomado. Nesse ínterim um novo acontecimento patenteara a má vontade de Lutero: a discussão de Leipzig.

Os erros de Lutero foram-se espalhando com a repulsa de uns e a aprovação de outros. Em breve as próprias universidades da Alemanha veriam as suas opiniões divididas, efeito das dúvidas e discussões suscitadas.

O enfraquecimento da fé e o relaxamento da moral eram um terreno propício para as novidades e revoltas.

As universidades de Wittemberg, Ingolstad e Leipzig combinaram entre si um debate público para resolver a pendência. O lugar escolhido foi o castelo do conde Jorge de Sax, em Leipzig. Ali deviam reunir-se os representantes de cada partido.

O salão de honra do castelo foi dividido em duas partes destinadas às duas facções, com dois púlpitos no centro, um em frente ao outro.

A discussão teve início a 27 de junho de 1519 entre Carlostad e Eck. O enviado de Lutero foi vergonhosamente vencido, não podendo provar as suas teses, nem refutar as do seu antagonista.

Referindo-se, mais tarde, a esse fracasso, falou Lutero:

“Em Leipzig Carlostad recolheu vergonha em vez de honra, mostrando-se um miserável polemista, com espírito tapado e tolo” (H. Boeckmer: Der Junge Luther 1929, pág. 255).

A impressão foi péssima para a pretensa reforma. Os partidários chamaram Lutero para vingar a desfeita e soerguer a honra comprometida da nova doutrina.
Lutero cai em contradição e sai
derrotado pelo católico Dr. Eck
Em 4 de julho re-encetou-se a polêmica, desta vez entre Lutero e Dr.
Eck. Tudo convergiu logo para a palpitante questão: a autoridade da Igreja em matéria doutrina.

Lutero havia opugnado as indulgências, proclamando o valor supremo da Bíblia e a inutilidade das boas obras, mas não tinha ainda opinião formada sobre a jurisdição da Igreja em questões de doutrina.

Caiu em contradição, titubeou, aderindo, publicamente às condenadas doutrinas de Huss, rejeitando a autoridade da Igreja. O Dr. Eck refutou vitoriosamente as asserções heréticas, e Lutero não fez papel mais brilhante do que o seu representante vencido, Carlostad.

Os ânimos dos sectários se exaltaram e vários começaram a grita contra as asserções católicas de Eck.

A 14 de julho encerrou-se a discussão, levando os louros do triunfo o Dr. Eck, como o próprio Lutero depois declarou em uma carta a Melanchton:

“Eck tem as vantagens: ele triunfa e reina. Estes leipziganos não nos saudaram, nem visitaram, mas nos trataram como inimigos, enquanto acompanharam Eck em toda parte... para nossa vergonha... aí está todo o drama: começou mal e acabou pior... discutimos mal” (Enders: corr. II, 85, 20 de julho de 1519).

O conde Jorge de Saxe, o povo de Leipzig, a universidade e os católicos hesitantes sentiram-se fortalecidos em sua fé, mas Lutero, recolhendo-se sob a capa do seu amor próprio ferido, se tornou cada vez mais intratável e grosseiro.

Ei-lo feito definitivamente herege.

6. FURORES DE LUTERO

Lutero compreendeu que Roma, diante destes acontecimentos, não mais permaneceria por muito tempo calada e resolveu tomar a frente , para romper publicamente com o papado.

Em 1520 publicou um pasquim intitulado: “Do Papado de Roma”.

Era uma resposta violenta e grosseira ao franciscano Agostinho Halfeld, que publicara um escrito em defesa dos direito divinos do papado.

Este escrito, segundo atestou um protestante daquele tempo, zombava da lógica e punha a sua força em grandes palavras. Tratava Halfeld de asno, que não sabe zurrar, e expunha a sua doutrina herética sobrte o reino invisível da Igreja e o sacerdócio universal, que não deixavam mais lugar para o papado.

O monge revoltoso tornou-se um verdadeiro energúmeno, blasfemando, insultando a todos os que não estavam pelas suas idéias.

PRIEIRAS havia refutado alguns erros de Lutero. Este não demora com a resposta:

“Este homem miserável, escreve ele, produziu um escrito que parece feito pelo próprio Satanás, no fundo do inferno.,.. se tal é a doutrina de Roma, eu declaro que verdadeiramente o anticristo está sentado no templo de Deus e reina em Roma, a verdadeira Babilônia, revestido de púrpura, sendo a corte de Roma a sinagoga de Satã”

O furibundo monge continua, parecendo um verdadeiro possesso:

“Contra a cólera da Cúria Romana”, continua ele “parece não haver mais outro meio senão que o imperador, reis e príncipes enfrentem esta peste pela força das armas e a estirpem da terra”.

“Se nós castigamos ladrões com a forca, bandidos com a espada, hereges com o fogo, por que não agredimos com qualquer arma estes doutrinadores da corrupção, estes cardeais, estes papas e toda esta bicharada da Sodoma romana, que leva toda Igreja à putrefação? Por que não lavamos as nossas mãos no sangue dele?” (Corresp. III. 73. jan. 1521)

O dominicano inquisidor Jacques von Hostraten não é melhor acolhido.

Na expressão de Lutero, ele é um assassino, doido e sanguinolento, que não pode ser saciado senão pelo sangue dos cristãos... deve procurar besouros nas estrumeiras, em vez de cristãos, até aprender o que é pecado, erro e heresia... pois, continua o monge furibundo, nunca vi maior burro do que tu... és uma cabeça cega, tapada; tu, cão raivoso... inimigo da verdade, herege, pois trazes em ti mais veneno o que todos os hereges deste últimos 4.000 anos (Obras Lutero, Weimar II. 384).
As universidades de Lovaina e de Colônia não escaparam à sanha furibunda do reformador. Segundo o costume daqueles, haviam se pronunciado contrárias a certas asserções do professor de Wittemberg. Este lhes respondeu logo:

“Enquanto não me tiverdes refutado, ligo tanto às vossas condenações, quanto me importo com as blasfêmias de uma mulher bêbada!” (Obras Weimar VI. 157).

Em uma carta a seu amigo Spalatino, trata estes doutores de “asnos de Lovaina e de Colônia”.
Em 1518, Lutero exclama com razão:

“Eu sou completamente o homem das disputas, sou segundo as palavras de Jeremias, o homem da discórdia” (Grisar I. 340).

7. CONCLUSÃO

Eis como Lutero entrou em cena.

Vê-se logo não ser um reformador desejoso de extirpar abusos e de reconduzir os homens à prática de virtudes que tinham abandonado.

É um homem, só confiante em seu próprio valor e na sua personalidade, orgulhoso ao ponto de preferir as sua opiniões às do mundo inteiro; é um espírito irrequieto à cata de novidades, ou, como vimos no começo, um homem obsesso por uma idéia fixa, que pretende impor-se a todos.

Numa palavra, é um anormal, doente, uma espécie de nevropata.

Se, neste tempo, houvesse existido o espiritismo, é de presumir se houvesse Lutero lançado, de corpo de alma, nas práticas espíritas, sem pensar na fundação de uma seita herética.

Às pessoas sensatas pergunto se tal pode ser a disposição, o modo de agir, as pretensões de um reformador de religião, de um homem escolhido por Deus, como dizem os protestantes, para reconduzir a Igreja verdadeira à pureza de seus princípio e das suas doutrinas.

É impossível.

O simples bom senso protesta contra a asserção crentista.

O reformador de uma religião divina devia ser pelo menos, um homem de virtude, calmo, prudente; Lutero, no entanto, se apresenta como um vulgar insultador, insolente, grosseiro, indecente e, muitas vezes grotesco.

Através de sua vida, de suas palavras e atos, sente-se unicamente a paixão, o orgulho, a sensualidade, o espírito de revolta.

Lutero, pela doutrina, é o fundador do protestantismo; pelos atos, é o fundador da mentalidade comunista-revolucionária.

Convinha salientar bem esta primeira fase da vida pública de Lutero, pois ela constitui, com os seus prelúdios já expostos, as premissas das inúmeras conclusões que, em breve, seremos impelidos a extrair desta vida agitada e tristemente fecunda.


Índice do Livro
Capítulo V

DLP-V



CAPÍTULO V

A CONDENAÇÃO DE LUTERO


Mesmo com todas as suas fanfarronadas e provocações, o “reformador” senti-se inquieto. Após se rebelar contra a Igreja, recorreu à ajuda dos grandes do seu tempo.

Em data de 23 de outubro de 1520 escreveu ao imperador Carlos V, dizendo-se desejoso de comparecer perante ele, COMO UMA PULGA perante o rei dos reis, soberano universal.

“Contra o meu querer, acentuou ele em sua carta, apresentei-me publicamente em cena; se cheguei a escrever algo, foi porque outros a isto me obrigaram pela força ou pelo embuste; jamais aspirei por outra coisa senão à solidão da minha cela... Mas há quase três anos estou exposto ao ódio dos outros, entregue a toda espécie de zombarias e perigos. Em vão imploro me perdoem; em vão prometo calar-me; em vão ofereço as condições de paz; em vão espero melhores instruções para mim.; lança-se todos sobre mim, com o fito de destruir o Evangelho inteiro”.

E, em situação tal, suplicava Lutero à autoridade civil “o defendesse, não a ele, desamparado e prostrado por terra, mas ao tesouro da verdade”...

Eis o pai dos protestantes, o “sublime Lutero” implorando, submisso e cheio de bajulação, a proteção dos potentados da terra. Em suas expressões sente-se a hipocrisia do herege, a obsessão do doente, e, sobretudo, o remorso duma consciência que não cala.

Em suas expressões sente-se a hipocrisia do

Em cargas subseqüentes, segundo as circunstâncias, chegou ele a atacar o poder, abandonando a sua situação de POBRE PULGA, para se transformar num TIGRE FURIOSO, pretendendo assaltar a Igreja e a sociedade, e tudo destruir e esmagar. Percorramos a vida de Lutero, nesta nova fase.

1. O DESESPERADO

Sobre a sua cabeça em ebulição Lutero sentiu pesar a excomunhão da Igreja.


Como já ficou dito atrás, pressentiu ele, antes de tudo, ser-lhe urgente destruir na opinião ública o receio provocado por aquele castigo oficial e supremo da autoridade.

Para lograr o seu intento, começou, então, a pregar abertamente contra a mencionada pena, apresentando-a, não como temível, mas propalando-a desejável.

“Tal castigo”, exclamou ele, “não separa da comunhão dos cristãos; antes, é de grande mérito perante Deus que abençoa duplamente ao que vem a falecer nesta injusta maldição”.

No entanto, malgrado bravatas deste porte, Lutero padecia de terrível inquietação.

As universidade de Lovaina e Colônia se declararam contra ele, enquanto o processo correia. O Dr. Eck reunira os documentos da discussão de Leipzig, com outras provas de heresias, e levara tudo a Roma.

Exasperado, Lutero escreveu então um panfleto incendiário, dirigido à nobreza alemã, tratando dos melhoramentos do estado cristão.

Em termos furiosos ele expôs como, a seu ver, o papado pecou contra a nação germânica e contra a Igreja. Em 25 capítulos abordou ele o assunto dos abusos eclesiásticos, já por outros apontados com mais calma e ponderação (*).

Afinal, “era um simples plágio”.

Ao finalizá-lo, fervendo em ódio e sedento de vinganças, levantou os olhos ao céu, e exclamou:

“Ó Cristo, meu Senhor, olhai para a terra, fazei raiar o último dia e destruí o ninho diabólico de Roma”.

Estava lançada a declaração de guerra, com que pretendia lrevoltar o povo alemão em peso contra a Igreja de Cristo.
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(*) - Gravamina: Onus Ecclesiae; Perstinger: De planctu Ecclesiae; De ruína Ecclesiae, etc...

2. NOVAS DOUTRINAS HERÉTICAS

Logo se pôs Lutero a fabricar um tratado DOUTRINAL da sua “reforma”, justificando que, assim como outrora haviam os judeus sido libertados da escravidão por Moisés, iria ele, então, livrar os povos cristãos da servidão babilônica.

O novo libelo foi intitulado: “Da escravidão babilônica”; nesta exposição Lutero liquidou completamente com o Papa, com a hierarquia e com a Igreja visível. Lutero reduziu a três os sacramentos: batismo, confissão e ceia, considerando os dois últimos como uma coisa grotesca, sem caráter obrigatório.

Falando sobre a Eucaristia, ensinava que na sagrada hóstia não permaneciam apenas as aparências, mas até a própria substância do pão, =de sorte que não há propriamente a TRANSUBSTANCIAÇÃO ou mudança da substância de pão na do corpo de Jesus Cristo, como o ensina a Igreja, mas se dá uma espécie de “empanação” em virtude da qual a substância do corpo de Nosso Senhor está presente na hóstia consagrada, conjuntamente com a substância do pão, o que se poderia chamar: consubstanciação ou duas substâncias sob uma só aparência.

Conforme a nova doutrina, a Santa Missa não é mais um sacrifício; o direito de impor mandamentos ou fazer votos opõe-se à liberdade eclesiástica; o celibato deve desaparecer e a Igreja, com suas prescrições a respeito do matrimônio torna-se culpada de adultério.

O conteúdo deste novo Evangelho pode resumir-se nestas palavras do reformador:

“Nem o Papa, nem o Bispo, nem homem algum tem direito de impor a um cristão uma vígula sequer, sem que este o consinta”

Como é patente, tal modo de falar traz completa destruição de toda autoridade, a anarquia no governo e a rebelião no povo.

Lutero não raciocina mais. É um mísero possesso ou, melhor, um desequilibrado.

3. A BULA DE CONDENAÇÃO

Era tempo de agir, p0ois não havia mais esperança de pacificação. Lutero queria a guerra.

Em fins de abril de 1520 uma Comissão de Cardeais e teólogo, presidida pelo Papa Leão X, redigiu a Bula de condenação, publicada em 15 de junho do mesmo ano. É a Bula: EXURGE, DOMINE, composta de três partes; a primeira tratando dos ERROS; a segunda dos ESCRITOS e a terceira, da PESSOA do excomungado.

Em 41 asserções foram compreendidos os erros do herege, acerca da justificação e da autoridade da Igreja.

Sobre os escritos heréticos ficou declarado deverem ser queimados em toda a parte onde houvessem sido difundidos.

Quanto à pessoa de Lutero, a Santa Sé não promulgava ainda castigo algum, desejando deixar-lhe tempo e oportunidade de reconhecer os erros e poder retratá-los.

O aviso do Pontífice é paternal e conciliador; é sem razão que os protestantes reclamam contra a aspereza do tom desta Bula.

Eis o que disse Leão X neste documento:

“Tomando como exemplo a vontade de Deus que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva, nós queremos esquecer todos os insultos lançados contra nós e contra a Sá Apostólica.

Estamos resolvidos a exercer a maior indulgência possível, e, enquanto depende de nós, levaremos a coisa de maneira tal que o culpado se levante, se converta de coração e retrate os erros indicados e que, voltando ao seio da Igreja, tal o pródigo do Evangelho, possamos recebê-lo com alegria.

Avisamos, pois, ao culpado e aos seus partidários de todo o coração, pelo amor e misericórdia de Nosso Senhor Deus e pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem foi resgatada a humanidade e confirmada a Igreja, e os conjuramos a desistirem de perturbar a paz, a unidade e a verdade da Igreja, pelos erros perversos que vão espalhando.

“Mostrando-se obedientes, eles encontrarão em nós copioso amor paternal, e braços abertos pela generosidade e a mansidão”.

Que distância não vai entre esta linguagem paternal, calma e ponderada do Chefe da Igreja, e os brados rancorosos, odientos e sanguinários do monge rebelde!

Algumas expressões extraídas da Sagrada Escritura e ainda outras em uso naquele tempo não apenas fórmulas comuns de casos semelhantes, sem serem a expressão dos sentimentos do Papa.

A promulgação desta Bula foi confiada ao Dr. Eck, o conhecido adversário resoluto das inovações de Lutero. Tal escolha agradou aos católicos, mas irritou aos partidários do erro que viram nisto uma espécie de provocação.

O Dr. Eck encontrou sérias dificuldade para promulgá-la, devido ao estado de irritação entre o povo de seu país.

Várias universidades, como as de Leipzig, Wittemberg, Erfurt e Viena, promulgaram a Bula após longo demora. Vários bispos, receosos de oposição, não a publicaram logo.

Tal demora e este medo nos mostram que bom número de católicos e mesmo autoridades não compreendiam ainda o perigo representado pelos novos ensinos e pelas revoltas do frade apóstata.

Julgando pacificar os ânimos pela paciência, deixaram o erro penetrar no espírito do povo que, sem dar ouvidos a vozes contrárias, abraçou o erro como se fosse a verdade, tornando-se, deste modo, protestante sem o perceber.

4. OS INSULTOS DE LUTERO

Não foi possível Lutero esperar proteção do imprador Carlos V, que era religioso demais para dar passaporte a um inimigo da Igreja, porém podia contar com o príncipe Frederico de Saxe para protegê-lo, caso o atingisse a excomunhão.

Primeiramente fingiu não acreditar na Bula e divulgou o boato de ser ela arranjo e obra do Dr. Eck; em conseqüência, pretendera insultar o Papa na pessoa de Eck, em fez de fazê-lo diretamente. “São Bulas e mentiras de Eck”, falava ele.

Era-lhe, porém inútil sustentar por longo tempo este fingimento, e, não podendo mais conter o seu ódio, externa-o em novo escrito: “Contra a Bula do Anticristo”(*) publicado em novembro de 1520.

Neste novo pasquim diz o herege que a sua doutrina é a única verdadeira e, por isso, esta Bula pretende obrigá-lo a renegar a Deus e adorar o demônio.

“ O Papa e os Cardeais, diz ele, devem provar as suas aifmrações, senão serei coagido a considerar a Santa Sé como a sede do Anticristo, condenando-a e entregando-a a Satanás, com esta Bula e todas as suas decretais”.

O pseudo-reformador parece antes uma possesso do que um homem equilibrado.

Dirigindo-se ao Imperador, ele exclama:

“Onde estás, grande imperador, onde estais vós, reis cristãos? Vós vos consagrastes pelo Batismo e podeis suportar estas vozes infernais do Anticristo?”

Quanto à bula, escreve ele:

“Todos os verdadeiros cristãos devem pisá-la aos pés e expulsar, pelo enxofre e o fogo, o Anticristo romano e o Dr. Eck. O seu apóstolo”

Neste mesmo ano reeditou outro pasquim: “Sobre a liberdade no cristianismo”, do qual enviou um exemplar ao Santo Padre Leão X, acompanhado de uma carta, na qual se lêem os seguintes insultos, mais dignos de um desequilibrado que de um reformador:

“A Igreja Romana é uma horrenda Sodoma e Babilônia; um covil de assassinos acima de todos os covis; uma casa de bandidos acima de todos os bandidos; um centro e uma terra de pecado e morte e de perdição, ao ponto de ser impossível pensar que pode subir em maldade, nem com a vinda do próprio Anticristo. ENTRETANTO, VÓS, Ó SANTO PADRE, ESTAIS ALI, COMO UM CORDEIRO NO MEIO DOS LOBOS”

O pobre herege procura encobrir a voz do Papa, por sua cólera, suas invectivas e seus insultos, aparecendo como um bêbado, gritando, gesticulando, sem saber de que lado virar, para encontrar um pouco de paz e de tranqüilidade. O demônio parecia ter entrado em seu corpo e em sua alma.
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(*) - Esta palavra torna-se uma obsessão para Lutero, que com ela visa menos a pessoa de Lerão X do que o poder papal em geral e toda a hierarquia.

5. A EXCOMUNHÃO DE LUTERO

Desejoso de manter-se na opinião pública e diminuir os efeitos do ato pontifício. Acém de lançar mão de escritos e palavras, resolveu Lutero recorrer a uma representação teatral.

Convidou a universidade de Wittemberg a um piedoso e edificante espetáculo em praça pública.

Na hora marcada, tendo feito acender uma fogueira, apareceu Lutero, vestido de monge agostiniano; tendo consigo a Bula de excomunhão, estendeu-a sobre o fogueira, exclamando em alta voz:

“Porque atacaste a verdade do Senhor, eis que ele agora te ataca pelo fogo”.

Com a mão levantada fez um movimento circular e a Bula caiu no meio do fogo, sendo consumida pelas chamas.

“O piedoso e edificante espetáculo” estava terminado.

A mocidade luterana, fanatizada pelo seu professor herético, imitou-lhe o exemplo, e eis que desapareceu no braseiro crepitante tudo o que puderam encontra na igreja: livros de Direito, Constituições eclesiásticas, teologias, livros de orações, etc.

Esta cerimônia solene, dirá mais tarde o excomungado, foi feita por inspiração do Espírito Santo (Pastor IV. P. 384).

No dia seguinte, quando os estudantes lhe exaltaram a ação heróica, Lutero manifestou-se penalizado por não poder lançar no mesmo fogo o trono do Papa e ajuntou esta bela frase:

“Quem não combate o papado, de todo o coração, não pode alcançar a salvação eterna”. (Ibid. p. 284).

Lutero estava condenado pela Santa Sé. Noutros tempos a sentença de Roma teria sido imediatamente acolhida pelo império, porém, nestes em que a revolta era como um fogo abafado, prestes a invadir o império germânico, era preciso calma e tempo.

O prazo passou, pois, e os 60 dias marcados para a retratação, ou para entrar em vigor a excomunhão, chegaram ao termo.

Em 3 de janeiro de 521, o Papa Leão X lançou uma nova Bula “Docet Romanum Pontificem” contra Lutero, declarando-o publicamente excomungado.

Ao mesmo tempo o Soberano Pontífice, em 18 de janeiro, dirigiu um Breve ao Imperador, pedindo fosse publicada em toda a Alemanha a Bula de excomunhão, para a revolta ser conhecida pelo povo, e para este último ficar prevenido contra os erros ensinados.

Lutero procurou proteção junto do seu benfeitor, príncipe Frederico de Saxe que intercedeu em seu favor perante o Imperador, pedindo para ser ouvido pela autoridade civil, antes da execução da sentença do Papa.

O imperador, mau grado seu, foi impelido pelos príncipes a atender ao pedido, ordenando o comparecimento de Lutero diante do Conselho geral de Worms.

6. PERANTE O CONSELHO DE WORMS

Fato curiosos, que se poderia qualificar como o da obsessão do apóstatas, é o pensamento de Satanás, a persegui-lo, e a quem atribui todos os seus reveses: ele vê demônios em toda parte: - um ruído nas galerias da igreja de Erfurt, durante o seu sermão; a quês de umas pedras, em Goth, durante a sua palestra; um incômodo, que o impediu de continuar viagem, tudo e=isso ele considerou produzido pela ação dos poderes infernais.

Escrevendo a seu amigo Spalatino, antes de ir as Worms, Lutero disse:

“Iremos a Worms e os poderes do inferno e do ar não poderão impedir esta viagem”.

Ei-lo, pois, a caminho de Worms.

Dizem os historiadores que tal trajeto foi um triunfo. Os partidários o acompanharam e, por onde passava, todos queriam ver o homem extraordinário e alvo de tantas contradições.

Em 16 de abril de 1521 chegou à cidade, onde já se achavam reunidas as autoridades eclesiásticas com os príncipes e o Imperador.

Os ânimos estavam exaltados, e receiava-se até um levante popular, fomentado pelos amigos de Lutero.

No dia seguinte, 17, o herege foi citado perante o conselho (Ryksdag) , para ser ouvido.

Esperava-se uma exposição brilhante da parte de Lutero, pois havia declarado publicamente estar resolvido a “amedrontar e esmagar o próprio Satanás”, porém aconteceu o contrário.

Às duas perguntas que lhe forma dirigidas ele respondeu com voz tão sumida, tanto que só foi ouvido por aqueles que estavam mais próximos, como estivesse com medo ou indisposto.

Perguntaram-lhe se era de fato o autor dos escritos aí expostos.

Lutero respondeu afirmativamente.

Convidaram-no depois a condenar os erros neles contidos.

A este convite respondeu Lutero, pedindo reflexão e tempo, porque, disse, assim de repente, não podia dar uma solução.

Concederam-lhe vinte e quatro horas para pensar.

No dia seguinte Lutero compareceu em seu estado natural de insolência e orgulho; procurou defender os seus erros, atacou a autoridade da Ighreja e declarou em nada poder voltar atrás.

O seus amigos o haviam animado e excitado neste intervalo, instigando-o a sustentar suas opiniões.

Vendo o teimosia e o fanatismo cego do monge, o Imperador deu ordem a Lutero que se retratasse no dia seguinte dando-lhe salvo-conduto e garantia durante 20 dias, sob condição de não pregar nem espalhar os seus escritos.

À noite deste mesmo dia reuniram-se os protetores de Lutero: Frederico de Saxe, Spalatino e outros, e resolveram esconder o revoltoso para subtraí-lo a qualquer eventualidade do poder civil ou a qualquer perseguição dos seus adversários.

O mensageiro imperial, Gaspar Sturm, devia acompanhar Lutero, levando uma pequena tropa de soldados.

Querendo o reformador fazer a viagem, com uns amigos, despediu o mensageiro, conservando apenas uns guardas desarmados; a razão desta despedida era a seguinte: tudo estava cuidadosamente preparado para uma fingida cilada, que devia salvar Lutero, excitar a animosidade dos seus adeptos e envergonhar os seus inimigos.

Passando, à noite, pelas florestas de Turíngia, perto de Altestein, em 44 de maio de 1521, Lutero foi subitamente assaltado por uns cavaleiros, retirado do carro e conduzido a cavalo para o Castelo de Wartburg, perto de Eisenach.

No dia seguinte espalhou-se logo o boato de que o passaporte do Imperador havia sido violado e que Lutero estava preso, tendo sido horrivelmente maltratado; propalavam alguns ter visto o seu cadáver, jogado na cavidade de um rochedo.

As más línguas seguiram naturalmente as más cabeças, e mil legendas impressionantes corriam no meio da populaça exaltada.

Neste tempo o apóstata excomungado estava sossegado ao abrigo de qualquer violência e levando vidas principesca, escondido no velho castelo de Wartburg, sob o pseudônimo de “Cavalheiro Jorge”.

7. DECISÕES DE WORMS

Enquanto isto ocorria, estava em andamento a sessão do Conselho de Estado, em Worms.

A teimosia de Lutero, em não se querer convencer dos seus erros, deu ao imperador pleno direito de lançar um edito contra o herege, em defesa de doutrina católica.

............................................CATEDRAL DE WORMS

Este ato foi redigido, assinado pela autoridade civil e confiado ao representante do Papa, para ser levado a Roma.

O protetor de Lutero, Frederico de Saxe, vendo frustrados os seus esforços, para não assistir à condenação de seu pupilo, retirou-se das reunião e escreveu a uma amigo:

“Não somente Anás e Caifás são contra Lutero, mas também Pilatos e Herodes, isto é, a autoridade religiosa a civil (Janssen-Pastor: II. 184).

Este edito de Worms não produziu o efeito que os homens sinceros dele esperavam.

Muitos acharam o texto um tanto áspero, incisivo, de modo que causou entre os católicos uma certa inquietação, e entre os sectários de Lutero um ódio maior contra a autoridade.

Nele se proclamava a excomunhão de Lutero, ordenando-se fosse ele considerado herege, não podendo mais ser acolhido, favorecido ou protegido por ninguém. Qualquer um estava obrigado a prendê-lo e entregá-lo ao Imperador. Seus livros deviam ser destruídos e punidos de excomunhão.

Ficou encarregado o Conselho municipal de Neuremberg de providenciar a execução da sentença.

São notáveis as acusações contra Lutero, expostas neste documento:

“Pelos seus escritos”, diz o edito, “Lutero espalha práticas corruptoras: muda o número dos Sacramentos, altera a lei da indissolubilidade do matrimônio, insulta o Papa com palavras grosseiras e blasfematórias, despreza o Sacerdócio e procura excitar os leitos a lavarem as mãos no sangue dos Sacerdotes. Ensina a falta de liberdade da vontade humana e exorta a uma vida sem freio e sem autoridade. Chegou ao ponto de não recuar diante das barreiras mais sagradas, fazendo queimar, em público, livros canônicos. Despreza os Concílios e apelida o Concílio de Constança: uma sinagoga de demônios e os seus participantes: anticristos e assassinos. É um inimigo em trajes de monge, acumulando antigas e novas heresias; pretende pregar o Evangelho e destrói a fé sincera, sob o pretexto de restabelecer o verdadeiro Evangelho” (Janssen. P. II. 299).

Como se vê, o Conselho imperial estava bem informado dos manejos de Lutero, e este documento resume, em poucas palavras, as principais heresias do pretenso reformador.

Se o Edito houvesse sido bem executado, talvez o mundo não teria assistido às tristes e horrendas cenas que seguiram à protestantização da Alemanha.

Infelizmente as ordens imperiais não produziram o efeito desejado.

A fraqueza e a desunião do próprio governo, o dinheiro, o medo, o comodismo e a simpatia pela reforma de vários chefes, atrasaram e em muitos lugares inutilizaram as medidas ordenadas.

8. CONCLUSÃO

Tal era a situação do reformador, antes e após ser condenado.

Pode-se ajuizar que o pobre herege é um anormal de uma teimosia e orgulho sem iguais.

Nada era capaz de fazê-lo raciocinar. Vivia obcecado pela idéia fixa do ódio à Roma, que pretendia exterminar e pela idéia da Bíblia só, para cada um poder fabricar-se um religião individual, independente de Deus e dos seus representantes na terra.

Nota-se em todos os passos do heresiarca uma pronunciada má fé e o desejo de ser aplaudido pela multidão.

Juntando-se a estas disposições pessoais de Lutero a decadência da época, as hesitações da fé e a exaltação dos espíritos em procura de mudanças, compreende-se o futuro que esperava o reformador, o qual, de fato, coroou os seus esforços.

Os grandes homens, os reformadores ou os deformadores, não brilham tanto pelo valor pessoa, quanto pelo desvalor dos que os cercam.

É o que o provérbio pessoal expressa muito bem: no reino dos cego quem tem um olho é rei.

Assim, numa época de decadência, quando há falta de vigor, de energias, de entusiasmo, ao aparecer um indivíduo mais decidido e valoroso que os demais torna-se imediatamente o centro de uma nova constelação, em redor da qual gravitam os olhares e as simpatias.

Assim aconteceu com Lutero, um pobre orgulhoso que, sentindo a sua inferioridade em tudo, quis aproveitar a decadência que o cercava, para se elevar. Não encontrando em si um meio de efetuar este seu desejo, utilizou-se da insurreição, da palavra e da penas revolucionária, para se manifestar em pública e ganhar celebridade.

Tal é o super-homem protestante que temos pela frente. Simplesmente um super-revolucionário.

Índice do Livro
Capítulo VI

CAPÍTULO VI - LUTERO EM WARTBURGO


Isolado de todos, longe do bulício, separado dos maus companheiros que o excitavam, Lutero poderia arrepender-se e recuar, se disso fosse ainda capaz, repassando em espírito os acontecimentos tristes e desastrosos de que fora o causador. 

Tal, infelizmente, não aconteceu, ou melhor: SÓ SE VERIFICOU NOS SEUS PRIMEIROS DIAS DE EXÍLIO. 




Assistamos a uma nova etapa da vida do infeliz e obstinado pai das seitas protestantes.

À semelhança de um meteoro ameaçador e sinistro, ele apareceu rápido no firmamento da Igreja, para logo sumir num esconderijo, donde continuará, pelos seus escritos, fomentando o ódio, a desordem e disseminando através do mundo seus monstruosos erros.

Quanto à sua vida particular no Castelo de Wartburgo, lugar santificado pelas heróicas virtudes de Santa Isabel, Lutero, em pessoa no-la descreve numa carta a seu amigo Melanchton, aos 13 de julho de 1521:

"Aqui estou na ociosidade, insensível e endurecido infelizmente, rezando pouco e em nada me importando com a Igreja de Deus, porque me abrazam os grandes ardores de minha carne indomada ("quia carnis meae indomitae uror magnis ignibus"). Numa palavra: Eu que deveria ser fervoroso no espírito, sinto em minha carne a libidinagem, a preguiça, a ociosidade, a sonolência" (De Wette II, 22).

Prossegue:

"Nesta solidão, afogo-me em pecados ("peccatis immergor in ac solitudine")" (De Wette II, p.26).

Ei-lo, pois, solitário em Wartburgo que denominará mais tarde o seu “Patmos” de enviado de Deus.

Após ter ambicionado pairar acima de todos... caiu no lamaçal de todos os vícios, conforme ele mesmo o reconheceu.

Não é mais o Lutero orgulhoso que se nos apresenta, mas o Lutero crápula “ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die” (de Wette II. 6).


CASTELO DE WARTBURGO - REFÚGIO DE LUTERO 



Os dez meses de permanência no castelo de Wartburgo são uma página negra da vida do infeliz transviado. 




1. A PRETENSA MISSÃO DE LUTERO 



Vejamos o monge no castelo onde se refugiara. 


Isolado de todos, longe do bulício, separado maus companheiros que o excitavam, Lutero poderia arrepender-se e recuar, se disso fosse ainda capaz, repassando em espírito os acontecimentos tristes e desastrosos de que fora o causador. Tal, infelizmente não aconteceu ou melhor: só se verificou nos seus primeiros dias de exílio. 

Nas horas lentas e monótonas que se seguiram ouviu ele, a princípio, uma voz penetrante em si mesmo, tal o eco estridente dos corvos e corujas que cercavam a torre do Castelo e passavam diante da janela do seu quarto. 

"Quantas vezes”, declara ele próprio, “tremia de horror o meu coração, lançando-me em rosto este pensamento amargurante; apenas tu queres ser sábio? Todos os outros, então, estarão errados? E eles terão ficado no erro durante tantos séculos? Que será de ti, se estiveres errado, arrastando tanta gente ao erro e à eterna perdição?" (Obras Lut. Weimar, VIII. 411). 

Lutero não tinha a sinceridade nem a nobreza de sentimentos de uma Santo Agostinho, para se converter, condenar os seus erros e tornar-se um Serafim do amo de Deus, que refletiu, sob a moção da graça, sobre as palavras confortadoras: “quod isti e istae, cur non ego?” (o que puderam realizar estes e estas, por que não o conseguirei também?)... 

Lutero se encontrava no perigoso declive da revolta, descendo para o fundo do abismo... e o obcecado ânimo não lhe deixava mais ver outra coisa senão a ideia importuna a persegui-lo como um espírito maligno: - SÓ A BÍBLIA E SÓ A FÉ. 

A luta foi terrível entre a voz da consciência e os impulsos do orgulho. Em vez de ser favorável à primeira, forcejou impor-lhe silêncio. 

“Pude apenas, com os textos mais expressivos da Escritura”, escreve ele, “convencer a minha consciência de que era permitido resistir ao Papa, fazendo-o passar por anticristo, e considerar os Bispos como os apóstolos do anticristo, e as universidades como antros do pecado” 

Logo a soberba lhe abafava os remorsos de uma alma perturbada, persuadindo-o a julgar-se investido de uma missão divina, para reconquistar a liberdade do Cristianismo, escravizado pela Igreja Católica. 

Trata-se de uma verdadeira obsessão. Teria ele chegado a persuadir-se de fato ter um desígnio a cumprir neste mundo?... 

É possível, pois este fato se dá, tanto em homens perversos, quanto entre pessoa santas. 

Átila intitulou-se e foi de verdade: o flagelo de Deus. Alexandre Magno, César e Napoleão estavam convictos de terem sido chamados por Deus, para conquistar o mundo. Maomé, o histérico, com o qual Lutero, o possesso, possui muitos traços de semelhança, considerou-se um “profeta de Deus”, mandado para substituir por outra as religiões existentes. 

É, pois, admissível que o monge, dotado como era de imaginação ardorosa, de gênio turbulento, de atividade, dominada pelos nervos, deixando-se guiar pelo orgulho e pela confiança em seu valor pessoal, tenha chegado ao ponto de se dizer um “enviado de Deus”, para extirpar os abusos de sua época e promulgar a livre interpretação do Evangelho. 

Se não se pode estabelecer positivamente o fato, - pois a historia nos dá notícia de suas próprias dúvidas a respeito, - é permitido, entretanto, pensar que nos momentos de agitação tenha ele conseguido sufocar a voz da consciência, convencendo-se da realidade da sua missão libertadora, que se tornou para ele uma espécie de alucinação. 

2. APARIÇÕES DO DIABO 

Dois pontos sobressaem em Lutero, quando de sua permanência no castelo de Wartburgo: a sua ideia com relação ao demônio e as grandes tentações de que foi acometido. 

Em suas cartas a cada passo refere-se às suas relações com o diabo, enquanto ali esteve. Não só diz ele ter ouvido ali o demônio, no tremendo barulho que o parecia perseguir dia e noite, mas assevera tê-lo visto, sob a sensível aparência de um cão preto, dentro do seu quarto.. 

Deste espetáculo terrível Lutero nos dará uma ideia, mais tarde, em suas conversas de taberna: 

"Quando estava em meu Patmos”, diz ele, “tinha fechado, dentro dum armário, um saco de nozes de avelãs. Certa noite, apenas me deitara, começou um barulho infernal nestas nozes que, uma por uma, foram lançadas com força, contra as vigas do forro. Senti sacudirem-me a cama, e ouvi nas escadas um ruído, como se lançassem para baixo uma grande quantidade de vasos. Entretanto, a escada havia sido retirada, para ninguém poder subir ao meu quarto, estando presa à parede com uma corrente de ferro" (Wette Erl. 59 p.340), (FATO contado pelo próprio reformador em Eisleben, em 1546). 

O encontro do cão preto se deu em circunstâncias estranhas: o bicho teria procurado um lugar no leito de Lutero, que jeitosamente o teria retirado dali, jogando-o fora, através da janela, sem o menor ganido da parte do animal. Foi, parece, um diabinho manso e inofensivo que se deixou lançar assim para fora. Nada mais se pôde encontrar do cão, após a queda, nem mesmo vestígios. Lutero tinha a certeza de se tratar de um diabo, em carne, pelo e osso (Köstlin-Karveran I. 440, 1903). 

Referem ainda que um dia apareceu-lhe o demônio em pessoa, talvez para parabenizá-lo pela obra encetada, toda em benefício de satanás; nesta ocasião, tomado de horror e de medo, num acesso de raiva, teria Lutero jogado contra o demônio um tinteiro. A tinta não sujou a carapinha do capeta, mas foi o recipiente quebrar-se de encontro à parede, onde ficaram os sinais distintivos do seu conteúdo – uma grande mancha negra. 

Coburg e outros falam disto, mas Lutero, o único que poderia afirmar a realidade do fato, parece, a ele nunca se referiu. 

Que há de verdadeiro a respeito de tudo isso? 

É difícil dizer-se. Vistas, no entanto, as disposições e o estado anormal de Lutero, é crível não passasse de exaltação nervosa, de fantasia, de superstição. 

Seja como for, Lutero via demônios em toda parte. 

No opúsculo contra o duque de Brunswick, o demônio teve a honra de ser nomeado 146 vezes; no livro dos Concílio em 4 linhas fala Lutero 15 vezes a respeito de diabos. 

Os adversários da reforma têm o “coração satanizado e super satanizado" 

Noutra parte ufana-se Lutero de nunca ter descontentado o príncipe das trevas que o acompanha sempre. 

Tal disposição doentia, aumentada pelo isolamento em que vivia, como pela lembrança dos últimos acontecimentos, da sua excomunhão pelo Papa, da condenação pelo Edito de Worms, dos perigos que o ameaçavam, da incerteza do futuro, tudo isto devia necessariamente aumentar a demasiada tensão dos nervos e exaltar a imaginação ardente. 

Seja como for, por certo estava ele com direito a uma aparição do espírito das trevas, a fim de parabenizá-lo pela obra diabólica de revolta que estava efetuando no mundo, e pela perdição de milhares de almas que tal empresa iria acarretar. 

Se o demônio não lhe apareceu, não é porque lhe tenha faltado vontade para tal, mas apenas porque Deus não permitiu. 

3. TENTAÇÕES IMPURAS 

O que se vai ler é quase só testemunho do próprio “reformador”. 

Ele escreve a Melanchton: - 

"Corporalmente estou com saúde e sou bem tratado, porém as tentações e o pecado não me deixam em paz" (Cartas II.189). 

“Acredite-me, nesta solidão aborrecedora, estou sujeito às tentações de mil demônios... É muito mais fácil lutar contra homens que são diabos em carne, do que contra os poderes da milícia que habita o ar” (Eph. VI. 12). 

Caio muitas vezes, mas a mão do Senhor me levanta de novo! (Carta III.240. A. Gerbal).


















"LUXÚRIA" - de Henri Matisse


É, então, que ele dirige a Melanchton o famoso ditado: PECA FORTITER, CREDE FORTIUS – (peca fortemente, mas crê mais fortemente ainda). 


É aí, sobretudo, na ociosidade de seu desterro, que Lutero começa a entregar-se desabridamente às paixões vergonhosas da luxúria, como o atesta a sua correspondência íntima. 

Em 1522 ele escreveu a seu amigo Spalatino a carta mais falhofeira e vergonhosa que se pode imaginar onde se lê: 

"Sou um famoso namorador... Admiro-me que, escrevendo tantas vezes sobre o matrimônio, et misceor feminis, não tenha ainda virado mulher e tenha casado com uma delas”. “Entretanto, se queres o meu exemplo, tem o seguinte: TIVE JÁ TRÊS ESPOSAS AO MESMO TEMPO, e as amava tão ardentemente que perdi duas delas, que foram procurar outros maridos..”. “Quanto a ti, és um namorador mole não tendo sequer a coragem de ser marido de uma só" (De Wette II. 646). 

Pergunto a um homem de bom senso; é esta a linguagem de um reformador ou não é, antes, a correspondência de um vulgar boêmio, de um viúvo alegre? 

O padre Leonel Franca fez esta judiciosa observação: (“A Igreja, a Reforma e a civilização” L. II. C. I). “Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. No beber, diz ele, não quero que os outros entrem em competição comigo”. 

Escreverá mais tarde à sua Catarina: 

“Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!...” 

Em 1534 escreveu: 

“Ontem, aqui, bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal, e sento-o muito. Como quisera ter bebido bem, ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher” (De Wette IV. 553). 

Escreveu ainda: 

“Aqui passo todo o dia no ócio e na devassidão” (Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die) (De Wette II. 6). 

Na noite em que o reformador, com companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de out. 1522) “... não se fez senão beber e gritar, como de costume”, escreve Melanchton presente à cena “Os excessos do copo chegaram a fazer-lhe mal à saúde”. O motivo destas libações copiosas e estonteantes é confessado pelo próprio Lutero, numa carta dirigida a seu amigo Jerônimo Weller: 



"Quando o diabo te vexar com pensamento", diz ele, "palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. Dequando em quando se deve beber com maior abundância, jogar, divertir-se, e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para não lhe darmos azo de pertgubar-nos a consciência com ninharias. Quando te disser o diabo: Não bebas, responde-lhe: Por isso mesmo que me proíbes, é que hei de beber, e em nome Jesus Cristo beberei mais copiosamente... 

Por que pensar que eu bebo assim com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade, banqueteio-me com mais freqüência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar?... “TODO O DECÁLOGO SE NOS DEVE APAGAR DOS OLHOS E DA ALMA, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo” (De Wette IV. 188). 

Eis Lutero na realidade das suas idéias e da sua vida... e muito longe de ser “o reformador” místico que os protestantes inventaram, de cabeça coroada de louros, ele tem ocultos os pés que rastejam na mais nojenta lama do vício e da podridão. 

É triste escrever tais coisas... Infelizmente, tudo isso é verdade. 

Mais lamentável ainda é escondê-las, fazendo acreditar que tal homem é um mensageiro de Deus, para restabelecer a pureza do Evangelho e da moral cristã. 

Pode haver abusos nos membros da Igreja Católica, mas nunca houve, nem haverá maiores que os do pretenso reformador do catolicismo. 

Admitir a missão divina de Lutero é o mesmo que aceitar tenha Deus escolhido a lama para purificar o lodo; a imoralidade para corrigir as misérias humanas; a bebedice e a intemperança par suplantar os defeitos dos homens. 

4. A LIBERDADE EVANGÉLICA 

Já conhecemos a vida moral de Lutero, o qual ele mesmo atribuiu ao demônio, podendo-se, por isto, intitulá-la diabólica. 

Não pensemos, entretanto, ficasse Lutero dormindo a dia inteiro. Seu temperamento exaltado e buliçoso não lhe permitia repouso e, apesar da vida libertina e gastronômica que levava, podia estudar e escrever, continuando os seus ataques à Igreja e a sua propaganda subversiva. 

Os seus amigos de Wittemberg mandaram-lhe secretamente os livros e escritos começados, para que os levasse a termo. 

Seu principal cuidado foi ultimar uns tratados interrompidos, versando sobre o Magnificat, o comentário dos salmos, assim como acabar uns panfletos incendiários. 

Em seguida, pôs-se a traduzir o Novo Testamento, terminando-o em pouco tempo. Esta tradução, sob o aspecto exegético, pode qualificar-se uma verdadeira miséria, seja pelas idéias heréticas nele contidas, seja pela fraqueza dos comentários; apesar de todos os literatos alemães estão de acordo em dizer que linguagem lê suave e harmoniosa. 

Este Novo Testamento, revisto por Melanchton, foi publicado em 1522. É o único trabalho de fôlego, produzido por Lutero em Wartburgo. 

Entrementes, as idéias lançadas pelo herege, no fértil terreno da corrupção da época, principiavam a germinar e produzir os seus frutos. 

Os primeiros resultados, como sói acontecer em tempos de decadência moral como aquele, tiveram por mira principal a NEGAÇÃO DA CASTIDADE. Só se passou a pensar em mulheres e em casamentos. 

O próprio Lutero ficou horrorizado com a propaganda casamenteira operada pela sua doutrina e pelo seu exemplo. Eis o que escreve: 

“Que coisa mais perigosa pode haver do que excitar esta multidão de celibatários a contraírem matrimônio, tomando como apoio passagens bíblicas tão incertas e escassas? As conseqüências estarão mais perturbadas do que agora. Bem desejava eu tivessem os celibatários toda liberdade; não sei, porém, ainda, como provar isso” (Corresp. III. 218. Aug. 1521). 

Os seus amigos Bartolomeu Feldkirch, Carlostadt e Melanchton, eram de acordo deverem ser rejeitados e anulados os votos. Lutero bem o queria: contudo, não teve coragem de tão abertamente contrariar a Bíblia. Muito embora, está ele pela afirmativa... vai procurá-lo, pois, até descobrir qualquer texto possível de ser adaptado à sua ideia. 

Para ele a liberdade evangélica é o princípio central de todas as concepções religiosas, de modo que tudo se deve curvar perante este postulado básico em virtude do qual pôde ele, cinco semanas depois, escrever a Melanchton estas palavras: 

“Quem fez votos, com uma intenção contrária à liberdade, está desimpedido deles. Nesta regra estão incluídos aqueles todos que fizeram votos com o intento de procurar a salvação ou a justificação. Ora, a maior parte dos religiosos fez votos com esta intenção. Logo, é bem claro serem ímpios, sacrílegos e estarem em oposição ao Evangelho; é preciso, por conseguinte, libertá-los todos e afastar deles a maldição” (Correspond. IIII, 224. Sept. 1521). 

Lutero era monge, fizera votos; ei-lo com o meio de sacudir o jugo. E tal proceder abria caminho a uma renegação geral dos votos por todos os monges e religiosos; era a libertinagem ao alcance de todos, e a licença para que sacerdotes e freiras abraçassem a vida matrimonial, apesar do texto bíblico que tanto atrapalhou Lutero: “Fazei votos ao Senhor vosso Deus, e cumpri-os” (Salmo 75,12). 

Assim se expressa a Bíblia. Lutero, ao invés , em virtude da liberdade evangélica, de outro modo interpreta o acima: NÃO FAÇAIS VOTOS A DEUS, E TENDO-OS FEITO, NÃO OS CUMPRAIS. 

Eis a nova reforma, o novo Evangelho de Lutero: a Liberdade evangélica. Ensinava a moral católica não existir liberdade para se praticar o mal; o reformador, porém, pretende mudar tudo e legisla que a liberdade é completa, especialmente para se fazer o que não presta. 

Com efeito, da nova descoberta do falso frade veio um breve à luz um novo escrito “sobre os votos religiosos” .

Tal brochura foi bastante apreciada pelos contemporâneos sinceros: 

“Julgar-se-ia quase que tal livro, cheio de idéias de vingança, foi redigido por um bêbado, ou, antes, por um espírito saído do inferno”. 

João Dietenberger, por seu turno, apreciou-a assim: 

“É um livro repleto de mentiras, de blasfêmias e de insultos” (Grisar I. 398, nota 4).

O certo é que tal panfleto foi uma semente nova a sair em terreno propício, vindo exaltar muitos espíritos perturbado-os e lançando-os na estrada larga da libertinagem. 

Deste modo, a castidade, tão aconselhada por Jesus Cristo, foi abolida pelo pretenso reformador e purificador do cristianismo. 

Que total divergência não se nota entre o divino modelo da pureza, o divino Salvador, proclamando bem-aventurados os puros de coração, e o libertino e gastrônomo de Wittemberg, anatematizando a pureza e declarando felizes os devassos de vida... Que contraste entre ambos!... 

No entanto, é de se pasmar, ao ver tanta gente e, até, nações inteiras abandonarem a crença na Igreja fundada por Cristo, para darem ouvidos às elucubrações de Lutero. 

5. SAÍDA DE WARTBURGO 

Lançara Lutero a semente de revolta que devia medrar em breve. “Quem semeia vento recolhe tempestades”. E estas estavam se armando, anunciando-se ameaçadoras. 

Os insurrectos contra a Igreja Católica pediram a intervenção de Frederico de Saxe, protetor de Lutero, a fim de que desse mão forte à reforma, acabasse com os conventos, entredissesse a Missa e obrigasse o povo a adotar o novo Evangelho luterano.Era a aplicação do princípio: a força precede ao direito. 

O príncipe hesitou e não teve ânimo de lançar-se em tão perigosa empresa. 

Mas o fanatismo é uma verdadeira moléstia de nervos; não raciocina mais, é uma OBSESSÃO que deseja alcançar o fim, custo o que custar. 

Informado de tudo, não pôde mais Lutero aguentar a sua solidão de Wittemberg, para de tudo se informar. Achou o terreno mal preparado e, às ocultas, disfarçado em cavaleiro, regressou ao velho castelo, onde se deu à composição de uma nova brochura intitulada: “Aviso Fiel”, dirigida a todos os cristãos, pedindo-lhes impedissem a revolução que se estava urdindo. 

Era tarde demais. O germe da rebeldia, por ele lançado, estava desabrochando e produziria funestos resultados. 

O pedido de paz não produziu efeito. Lutero seria coagido a reconhecer ser mais fácil pregar a revolta nos pacíficos do que obter a pacificação dos rebelados. 

Wittemberg estava em pé de guerra. 

Carlostadt, que tão triste figura desempenhara em Leipzig, quis substituir Lutero, assumindo também ares de reformador. Pondo-se, então, a aplicar as teorias do mestre, proclamou publicamente que o casamento devia ser prescrito a todos os ministros do Evangelho, enquanto introduzia a Ceia em substituição à missa romana. 

No dia de Natal foi a novidade executada pela primeira vez. Carlostadt celebrou a Ceia na Igreja paroquial com pão e vinho distribuídos a todos os presentes; em janeiro seguinte o novo chefe evangélico entrou solenemente no templo, ao lado da mulher escolhida com quem se casou, conforme a liberdade evangélica. 

Os frades de Wittemberg adotaram logo o regime novo; queimaram os altares e as imagens de santos, introduziram publicamente a reforma e começaram a casar-se, seguindo o exemplo de Carlostadt. 

Parte da população aplaudiu o acontecido, enquanto outra quedou-se horrorizada à vista de tanta sem-vergonhice. 

Os tumultos aumentaram cada vez mais, a ponto de inquietarem o governo, que dirigiu rigorosa queixa aos Bispos e a Frederico de Saxe, dando-lhes ordem de encarcerar e castigar os perturbadores da ordem e da paz religiosa. 

Lutero, que até então observava o movimento, achou azado o momento para se tornar importante. É que se, por uma parte receava ser considerado covarde pelo povo, fugindo, depois de atear o fogo ao mundo e receando as conseqüências do incêndio, por outra, via ameaçada a sua obra reformadora. 

Era, pois, a hora de manifestar-se. Ele logo viu ser impossível aos bispos e às autoridades conter a revolta, generalizada como estava. 

Era preciso fazer qualquer coisa de urgente. Era a sua pretensão. 

A 1º. De março deixou ele o refúgio de Wartburgo, dirigindo-se para Borna, cidade ao sul de Leipzig. Foi daí que escreveu a Frederico de Saxe, implorando-lhe proteção e pondo-se ao seu dispor, na tarefa de pacificação do povo. 

A 6 de março Lutero, disfarçado de Cavaleiro Jorge, entrou Wittemberg, revestiu-se novamente da batina, cortou a barba e no domingo seguinte apareceu na igreja dos agostinianos, para do alto do púlpito começar uma pregação pacificadora. 

Custasse o que custasse, desejava deter a população exaltada e restabelecer a paz. Caso contrário, bem o sabia ele, estaria perdida a sua causa. 

6. FIGIMENTO HIPÓCRITA 

Lutero iria fingir um recuo a fim de agradar ao príncipe Frederico de Saxe e ao governo que o considerava fautor da revolução em marcha. 

O herege não hesitou... Do mesmo modo por que sabia blasfemar e caluniar por ódio, também era hábil em mostrar-se hipócrita e diplomata. 

Pronunciou 8 conferências para declarar a revolução oposta à liberdade evangélica, dizendo-se contristado ao ver o povo precipitar os acontecimentos em vez de se mostrar paciente e calmo. 

“Segui-me”, exclamava então, “eu nunca fui mal sucedido em minhas empresas; aliás, sou o primeiro a quem Deus confiou a missão e o encargo de pregar-vos esta doutrina”. 

A eloqüência popular e entusiasta de Lutero triunfou, e Wittemberg lhe ficou fiel; Carlostadt foi coagido a recuar e a fugir, até que em 1541 a peste pôs fim à sua vida exaltada, na cidade de Bazel. 

Sob a direção de Lutero, a igreja de Wittemberg foi consertada. Decorada como estava antes, e os frades apareceram de novo, revestidos dos paramentos sacros, para presidir e executar os ofícios, enquanto ressoavam hinos litúrgicos. 

Durante a missa a hóstia foi de novo levantada e mostrada ao povo. Exteriormente, nada se alterara ao Santo Sacrifício. Tal organização, porém, não passava de uma dissimulação, arranjada para pacificar os ânimos e completar a reforma. 

Lutero suprimia nas orações da Missa tudo o que lhe imprimia o caráter de Sacrifício, pois não a admitia como sendo a continuação incruenta do Sacrifício do Calvário, considerando-a simplesmente uma lembrança. 

Cochleus, seu auxiliar na heresia, e diversos outros não aceitavam estas cerimônias fictícias, por condenarem uma demonstração tão fingida. 

Respondeu-lhes o reformador que não se devia retirar o Sacramento da Eucaristia, antes de ter sido bem compreendido o PURO EVANGELHO (no sentido luterano). 

A obrigação imposta pela Igreja católica aos seus ministros, segundo a qual devem eles pronunciar em voz sumida lãs palavras do Cânon, facilitou os atos de novo culto, sem que o povo notasse a diferença entre as novas e as antigas cerimônias. 

Lutero pôde falar com toda razão: 

“Graças a Deus, as nossas igrejas, nas coisas neutras, são organizadas de tal maneira, que um leigo, seja francês ou espanhol,s que não entende a nossa prédica, ao ver a nossa, o nosso altar, os nossos paramentos, ao ouvir os nossos órgãos e os nossos sinos, têm de confessar estar assistindo a uma verdadeira missa papal” (W.Erl. l55.300). 

O povo ignorante não notou a diferença entre os dois ritos, nem deu pela reforma, de modo que mais tarde Lutero pôde ufanar de ter realizado o que era quase impossível no começo: abolir a Missa que havia lançado raízes tão profundas no coração dos homens. 

E em tom de júbilo exclamava: 

“Que Deus me deixe morrer de morte natural, e terá iludido os papistas, que não terão podido queimar vivo aquele que deste modo lhes destruiu a Missa” (Coll. Ed. Bindseil, 122). 

Esta subversão total da missa católica, da qual Lutero suprimiu o sacrifício eucarístico, e conservou apenas simples orações, sem significação e sem valor, porque desligadas daquele, depois de ter sido batizada solenemente por Lutero com o nome de “Missa alemã”, foi introduzida em Wittemberg, no ano de 1523. Somente três anos mais tarde foi a língua latina substituída pela alemã. 

7. CONCLUSÃO 

A estadia de Lutero no castelo de Wartburgo é das páginas da história de sua vida a que melhor nos descobre e transmite os sentimentos do espírito turbulento, do estado do coração viciando e da vontade votada ao mal do pobre e infeliz renegado. 

Na exaltação do mundo e na embriaguez do sucesso o homem sensato pode às vezes desviar-se, por falta de reflexão; mas quando se encontra solitário, na placidez do isolamento, uma pessoa sensata reflete, compara e dá pelo mal dos erros cometidos. 

Com Lutero, entretanto, nada disso aconteceu. 

Condenado pela autoridade civil, como perturbador da ordem pública; excomungado pela Igreja, como herege; humilhado nas discussões públicas, onde foi convencido de má fé e de ignorância; exilado da sociedade pelo Governo; recolhido por proteção num castelo solitário, Lutero, após uma breve hesitação permaneceu o mesmo homem =exaltado, rancoroso, teimoso em suas idéias, fanático em sua revolta. 

E, o que é pior, ele juntou aos erros de seu espírito as paixões vergonhosas e excessos de toda sorte. Foi verdadeiramente um infeliz, um decaído, um vulgar comunista, como diríamos hoje. 

E, após dez meses de tal vida, quando era de se esperar estivesse arrependido e transformado, ei-lo reaparecendo em público, não para reparar o mal, mas a fim de encobri-lo um instante por meio da máscara da hipocrisia, debaixo da qual continua a sua obra nefasta de ódio e de destruição. E, então, insulta, vitupera e arrasta até à lama o nome de Deus, atribuindo tudo à influência, diabólica e, ao mesmo tempo nutrindo em si e manifestando a convicção de ser mensageiro do céu para endireitar o mundo. 

Tal contraste não pode nascer bem subsistir num espírito equilibrado, mas somente num anormal e obsesso como ele. 

Esta idéia manifestou-a claramente na carta que escreveu ao seu protetor Frederico de Saxe quando lhe comunicou o seu projeto de deixar Wartburgo, para retornar a Wittemberg. 

“Vossa Alteza talvez não saiba, mas fique sabendo que eu não recebo o Evangelho da mão dos homens, mas unicamente do céu, de N. S. Jesus Cristo, e que, por isso, posso intitular-me, como doravante o farei. Apóstolo e Evangelista” (Correspond. III. 296, 5 de março de 1522). 

Não é para causar admiração tenha Lutero chegado a tal pretensão. 

O orgulho, que desde o começo o caracterizava, e o desequilíbrio da sua mentalidade, diante do sucesso e da popularidade que lhe haviam conquistado o entusiasmo e eloqüência fogosa, devia fazer surgir nele a idéia de ser um ENVIADO DE DEUS. 

Quando se viu ao mesmo tempo aclamado pela multidão e combatido pela autoridade de Igreja, restaram-lhe dois caminhos abertos perante ele: ou retroceder ou revoltar-se; noutros termos: ou reconhecer os erros, ou atribuir-se uma missão divina. 

N último, ele senti que a demasiada soberba não lhe permitia humilhar-se, como não acreditava sinceramente em tal missão. A sugestão do resultado alcançado, dos aplausos recebidos, foi-lhe infiltrando no orgulhosos espírito a possibilidade da empresa, e, enfim, a probabilidade da mesma. 

Lutero passou a ser um joguete dócil nas mãos de Satanás, que dele se servia como de um instrumento, para dividir a Igreja de Cristo e perder as almas, cuja falta de fé as reduzia a frutos apodrecidos da grande árvore católica – EX FRUCTIBUS EORUM COGNOCETIS EOS (Mateus 7, 80)