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quinta-feira, 11 de junho de 2009

CAPÍTULO VI - LUTERO EM WARTBURGO


Isolado de todos, longe do bulício, separado dos maus companheiros que o excitavam, Lutero poderia arrepender-se e recuar, se disso fosse ainda capaz, repassando em espírito os acontecimentos tristes e desastrosos de que fora o causador. 

Tal, infelizmente, não aconteceu, ou melhor: SÓ SE VERIFICOU NOS SEUS PRIMEIROS DIAS DE EXÍLIO. 




Assistamos a uma nova etapa da vida do infeliz e obstinado pai das seitas protestantes.

À semelhança de um meteoro ameaçador e sinistro, ele apareceu rápido no firmamento da Igreja, para logo sumir num esconderijo, donde continuará, pelos seus escritos, fomentando o ódio, a desordem e disseminando através do mundo seus monstruosos erros.

Quanto à sua vida particular no Castelo de Wartburgo, lugar santificado pelas heróicas virtudes de Santa Isabel, Lutero, em pessoa no-la descreve numa carta a seu amigo Melanchton, aos 13 de julho de 1521:

"Aqui estou na ociosidade, insensível e endurecido infelizmente, rezando pouco e em nada me importando com a Igreja de Deus, porque me abrazam os grandes ardores de minha carne indomada ("quia carnis meae indomitae uror magnis ignibus"). Numa palavra: Eu que deveria ser fervoroso no espírito, sinto em minha carne a libidinagem, a preguiça, a ociosidade, a sonolência" (De Wette II, 22).

Prossegue:

"Nesta solidão, afogo-me em pecados ("peccatis immergor in ac solitudine")" (De Wette II, p.26).

Ei-lo, pois, solitário em Wartburgo que denominará mais tarde o seu “Patmos” de enviado de Deus.

Após ter ambicionado pairar acima de todos... caiu no lamaçal de todos os vícios, conforme ele mesmo o reconheceu.

Não é mais o Lutero orgulhoso que se nos apresenta, mas o Lutero crápula “ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die” (de Wette II. 6).


CASTELO DE WARTBURGO - REFÚGIO DE LUTERO 



Os dez meses de permanência no castelo de Wartburgo são uma página negra da vida do infeliz transviado. 




1. A PRETENSA MISSÃO DE LUTERO 



Vejamos o monge no castelo onde se refugiara. 


Isolado de todos, longe do bulício, separado maus companheiros que o excitavam, Lutero poderia arrepender-se e recuar, se disso fosse ainda capaz, repassando em espírito os acontecimentos tristes e desastrosos de que fora o causador. Tal, infelizmente não aconteceu ou melhor: só se verificou nos seus primeiros dias de exílio. 

Nas horas lentas e monótonas que se seguiram ouviu ele, a princípio, uma voz penetrante em si mesmo, tal o eco estridente dos corvos e corujas que cercavam a torre do Castelo e passavam diante da janela do seu quarto. 

"Quantas vezes”, declara ele próprio, “tremia de horror o meu coração, lançando-me em rosto este pensamento amargurante; apenas tu queres ser sábio? Todos os outros, então, estarão errados? E eles terão ficado no erro durante tantos séculos? Que será de ti, se estiveres errado, arrastando tanta gente ao erro e à eterna perdição?" (Obras Lut. Weimar, VIII. 411). 

Lutero não tinha a sinceridade nem a nobreza de sentimentos de uma Santo Agostinho, para se converter, condenar os seus erros e tornar-se um Serafim do amo de Deus, que refletiu, sob a moção da graça, sobre as palavras confortadoras: “quod isti e istae, cur non ego?” (o que puderam realizar estes e estas, por que não o conseguirei também?)... 

Lutero se encontrava no perigoso declive da revolta, descendo para o fundo do abismo... e o obcecado ânimo não lhe deixava mais ver outra coisa senão a ideia importuna a persegui-lo como um espírito maligno: - SÓ A BÍBLIA E SÓ A FÉ. 

A luta foi terrível entre a voz da consciência e os impulsos do orgulho. Em vez de ser favorável à primeira, forcejou impor-lhe silêncio. 

“Pude apenas, com os textos mais expressivos da Escritura”, escreve ele, “convencer a minha consciência de que era permitido resistir ao Papa, fazendo-o passar por anticristo, e considerar os Bispos como os apóstolos do anticristo, e as universidades como antros do pecado” 

Logo a soberba lhe abafava os remorsos de uma alma perturbada, persuadindo-o a julgar-se investido de uma missão divina, para reconquistar a liberdade do Cristianismo, escravizado pela Igreja Católica. 

Trata-se de uma verdadeira obsessão. Teria ele chegado a persuadir-se de fato ter um desígnio a cumprir neste mundo?... 

É possível, pois este fato se dá, tanto em homens perversos, quanto entre pessoa santas. 

Átila intitulou-se e foi de verdade: o flagelo de Deus. Alexandre Magno, César e Napoleão estavam convictos de terem sido chamados por Deus, para conquistar o mundo. Maomé, o histérico, com o qual Lutero, o possesso, possui muitos traços de semelhança, considerou-se um “profeta de Deus”, mandado para substituir por outra as religiões existentes. 

É, pois, admissível que o monge, dotado como era de imaginação ardorosa, de gênio turbulento, de atividade, dominada pelos nervos, deixando-se guiar pelo orgulho e pela confiança em seu valor pessoal, tenha chegado ao ponto de se dizer um “enviado de Deus”, para extirpar os abusos de sua época e promulgar a livre interpretação do Evangelho. 

Se não se pode estabelecer positivamente o fato, - pois a historia nos dá notícia de suas próprias dúvidas a respeito, - é permitido, entretanto, pensar que nos momentos de agitação tenha ele conseguido sufocar a voz da consciência, convencendo-se da realidade da sua missão libertadora, que se tornou para ele uma espécie de alucinação. 

2. APARIÇÕES DO DIABO 

Dois pontos sobressaem em Lutero, quando de sua permanência no castelo de Wartburgo: a sua ideia com relação ao demônio e as grandes tentações de que foi acometido. 

Em suas cartas a cada passo refere-se às suas relações com o diabo, enquanto ali esteve. Não só diz ele ter ouvido ali o demônio, no tremendo barulho que o parecia perseguir dia e noite, mas assevera tê-lo visto, sob a sensível aparência de um cão preto, dentro do seu quarto.. 

Deste espetáculo terrível Lutero nos dará uma ideia, mais tarde, em suas conversas de taberna: 

"Quando estava em meu Patmos”, diz ele, “tinha fechado, dentro dum armário, um saco de nozes de avelãs. Certa noite, apenas me deitara, começou um barulho infernal nestas nozes que, uma por uma, foram lançadas com força, contra as vigas do forro. Senti sacudirem-me a cama, e ouvi nas escadas um ruído, como se lançassem para baixo uma grande quantidade de vasos. Entretanto, a escada havia sido retirada, para ninguém poder subir ao meu quarto, estando presa à parede com uma corrente de ferro" (Wette Erl. 59 p.340), (FATO contado pelo próprio reformador em Eisleben, em 1546). 

O encontro do cão preto se deu em circunstâncias estranhas: o bicho teria procurado um lugar no leito de Lutero, que jeitosamente o teria retirado dali, jogando-o fora, através da janela, sem o menor ganido da parte do animal. Foi, parece, um diabinho manso e inofensivo que se deixou lançar assim para fora. Nada mais se pôde encontrar do cão, após a queda, nem mesmo vestígios. Lutero tinha a certeza de se tratar de um diabo, em carne, pelo e osso (Köstlin-Karveran I. 440, 1903). 

Referem ainda que um dia apareceu-lhe o demônio em pessoa, talvez para parabenizá-lo pela obra encetada, toda em benefício de satanás; nesta ocasião, tomado de horror e de medo, num acesso de raiva, teria Lutero jogado contra o demônio um tinteiro. A tinta não sujou a carapinha do capeta, mas foi o recipiente quebrar-se de encontro à parede, onde ficaram os sinais distintivos do seu conteúdo – uma grande mancha negra. 

Coburg e outros falam disto, mas Lutero, o único que poderia afirmar a realidade do fato, parece, a ele nunca se referiu. 

Que há de verdadeiro a respeito de tudo isso? 

É difícil dizer-se. Vistas, no entanto, as disposições e o estado anormal de Lutero, é crível não passasse de exaltação nervosa, de fantasia, de superstição. 

Seja como for, Lutero via demônios em toda parte. 

No opúsculo contra o duque de Brunswick, o demônio teve a honra de ser nomeado 146 vezes; no livro dos Concílio em 4 linhas fala Lutero 15 vezes a respeito de diabos. 

Os adversários da reforma têm o “coração satanizado e super satanizado" 

Noutra parte ufana-se Lutero de nunca ter descontentado o príncipe das trevas que o acompanha sempre. 

Tal disposição doentia, aumentada pelo isolamento em que vivia, como pela lembrança dos últimos acontecimentos, da sua excomunhão pelo Papa, da condenação pelo Edito de Worms, dos perigos que o ameaçavam, da incerteza do futuro, tudo isto devia necessariamente aumentar a demasiada tensão dos nervos e exaltar a imaginação ardente. 

Seja como for, por certo estava ele com direito a uma aparição do espírito das trevas, a fim de parabenizá-lo pela obra diabólica de revolta que estava efetuando no mundo, e pela perdição de milhares de almas que tal empresa iria acarretar. 

Se o demônio não lhe apareceu, não é porque lhe tenha faltado vontade para tal, mas apenas porque Deus não permitiu. 

3. TENTAÇÕES IMPURAS 

O que se vai ler é quase só testemunho do próprio “reformador”. 

Ele escreve a Melanchton: - 

"Corporalmente estou com saúde e sou bem tratado, porém as tentações e o pecado não me deixam em paz" (Cartas II.189). 

“Acredite-me, nesta solidão aborrecedora, estou sujeito às tentações de mil demônios... É muito mais fácil lutar contra homens que são diabos em carne, do que contra os poderes da milícia que habita o ar” (Eph. VI. 12). 

Caio muitas vezes, mas a mão do Senhor me levanta de novo! (Carta III.240. A. Gerbal).


















"LUXÚRIA" - de Henri Matisse


É, então, que ele dirige a Melanchton o famoso ditado: PECA FORTITER, CREDE FORTIUS – (peca fortemente, mas crê mais fortemente ainda). 


É aí, sobretudo, na ociosidade de seu desterro, que Lutero começa a entregar-se desabridamente às paixões vergonhosas da luxúria, como o atesta a sua correspondência íntima. 

Em 1522 ele escreveu a seu amigo Spalatino a carta mais falhofeira e vergonhosa que se pode imaginar onde se lê: 

"Sou um famoso namorador... Admiro-me que, escrevendo tantas vezes sobre o matrimônio, et misceor feminis, não tenha ainda virado mulher e tenha casado com uma delas”. “Entretanto, se queres o meu exemplo, tem o seguinte: TIVE JÁ TRÊS ESPOSAS AO MESMO TEMPO, e as amava tão ardentemente que perdi duas delas, que foram procurar outros maridos..”. “Quanto a ti, és um namorador mole não tendo sequer a coragem de ser marido de uma só" (De Wette II. 646). 

Pergunto a um homem de bom senso; é esta a linguagem de um reformador ou não é, antes, a correspondência de um vulgar boêmio, de um viúvo alegre? 

O padre Leonel Franca fez esta judiciosa observação: (“A Igreja, a Reforma e a civilização” L. II. C. I). “Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. No beber, diz ele, não quero que os outros entrem em competição comigo”. 

Escreverá mais tarde à sua Catarina: 

“Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!...” 

Em 1534 escreveu: 

“Ontem, aqui, bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal, e sento-o muito. Como quisera ter bebido bem, ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher” (De Wette IV. 553). 

Escreveu ainda: 

“Aqui passo todo o dia no ócio e na devassidão” (Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die) (De Wette II. 6). 

Na noite em que o reformador, com companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de out. 1522) “... não se fez senão beber e gritar, como de costume”, escreve Melanchton presente à cena “Os excessos do copo chegaram a fazer-lhe mal à saúde”. O motivo destas libações copiosas e estonteantes é confessado pelo próprio Lutero, numa carta dirigida a seu amigo Jerônimo Weller: 



"Quando o diabo te vexar com pensamento", diz ele, "palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. Dequando em quando se deve beber com maior abundância, jogar, divertir-se, e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para não lhe darmos azo de pertgubar-nos a consciência com ninharias. Quando te disser o diabo: Não bebas, responde-lhe: Por isso mesmo que me proíbes, é que hei de beber, e em nome Jesus Cristo beberei mais copiosamente... 

Por que pensar que eu bebo assim com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade, banqueteio-me com mais freqüência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar?... “TODO O DECÁLOGO SE NOS DEVE APAGAR DOS OLHOS E DA ALMA, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo” (De Wette IV. 188). 

Eis Lutero na realidade das suas idéias e da sua vida... e muito longe de ser “o reformador” místico que os protestantes inventaram, de cabeça coroada de louros, ele tem ocultos os pés que rastejam na mais nojenta lama do vício e da podridão. 

É triste escrever tais coisas... Infelizmente, tudo isso é verdade. 

Mais lamentável ainda é escondê-las, fazendo acreditar que tal homem é um mensageiro de Deus, para restabelecer a pureza do Evangelho e da moral cristã. 

Pode haver abusos nos membros da Igreja Católica, mas nunca houve, nem haverá maiores que os do pretenso reformador do catolicismo. 

Admitir a missão divina de Lutero é o mesmo que aceitar tenha Deus escolhido a lama para purificar o lodo; a imoralidade para corrigir as misérias humanas; a bebedice e a intemperança par suplantar os defeitos dos homens. 

4. A LIBERDADE EVANGÉLICA 

Já conhecemos a vida moral de Lutero, o qual ele mesmo atribuiu ao demônio, podendo-se, por isto, intitulá-la diabólica. 

Não pensemos, entretanto, ficasse Lutero dormindo a dia inteiro. Seu temperamento exaltado e buliçoso não lhe permitia repouso e, apesar da vida libertina e gastronômica que levava, podia estudar e escrever, continuando os seus ataques à Igreja e a sua propaganda subversiva. 

Os seus amigos de Wittemberg mandaram-lhe secretamente os livros e escritos começados, para que os levasse a termo. 

Seu principal cuidado foi ultimar uns tratados interrompidos, versando sobre o Magnificat, o comentário dos salmos, assim como acabar uns panfletos incendiários. 

Em seguida, pôs-se a traduzir o Novo Testamento, terminando-o em pouco tempo. Esta tradução, sob o aspecto exegético, pode qualificar-se uma verdadeira miséria, seja pelas idéias heréticas nele contidas, seja pela fraqueza dos comentários; apesar de todos os literatos alemães estão de acordo em dizer que linguagem lê suave e harmoniosa. 

Este Novo Testamento, revisto por Melanchton, foi publicado em 1522. É o único trabalho de fôlego, produzido por Lutero em Wartburgo. 

Entrementes, as idéias lançadas pelo herege, no fértil terreno da corrupção da época, principiavam a germinar e produzir os seus frutos. 

Os primeiros resultados, como sói acontecer em tempos de decadência moral como aquele, tiveram por mira principal a NEGAÇÃO DA CASTIDADE. Só se passou a pensar em mulheres e em casamentos. 

O próprio Lutero ficou horrorizado com a propaganda casamenteira operada pela sua doutrina e pelo seu exemplo. Eis o que escreve: 

“Que coisa mais perigosa pode haver do que excitar esta multidão de celibatários a contraírem matrimônio, tomando como apoio passagens bíblicas tão incertas e escassas? As conseqüências estarão mais perturbadas do que agora. Bem desejava eu tivessem os celibatários toda liberdade; não sei, porém, ainda, como provar isso” (Corresp. III. 218. Aug. 1521). 

Os seus amigos Bartolomeu Feldkirch, Carlostadt e Melanchton, eram de acordo deverem ser rejeitados e anulados os votos. Lutero bem o queria: contudo, não teve coragem de tão abertamente contrariar a Bíblia. Muito embora, está ele pela afirmativa... vai procurá-lo, pois, até descobrir qualquer texto possível de ser adaptado à sua ideia. 

Para ele a liberdade evangélica é o princípio central de todas as concepções religiosas, de modo que tudo se deve curvar perante este postulado básico em virtude do qual pôde ele, cinco semanas depois, escrever a Melanchton estas palavras: 

“Quem fez votos, com uma intenção contrária à liberdade, está desimpedido deles. Nesta regra estão incluídos aqueles todos que fizeram votos com o intento de procurar a salvação ou a justificação. Ora, a maior parte dos religiosos fez votos com esta intenção. Logo, é bem claro serem ímpios, sacrílegos e estarem em oposição ao Evangelho; é preciso, por conseguinte, libertá-los todos e afastar deles a maldição” (Correspond. IIII, 224. Sept. 1521). 

Lutero era monge, fizera votos; ei-lo com o meio de sacudir o jugo. E tal proceder abria caminho a uma renegação geral dos votos por todos os monges e religiosos; era a libertinagem ao alcance de todos, e a licença para que sacerdotes e freiras abraçassem a vida matrimonial, apesar do texto bíblico que tanto atrapalhou Lutero: “Fazei votos ao Senhor vosso Deus, e cumpri-os” (Salmo 75,12). 

Assim se expressa a Bíblia. Lutero, ao invés , em virtude da liberdade evangélica, de outro modo interpreta o acima: NÃO FAÇAIS VOTOS A DEUS, E TENDO-OS FEITO, NÃO OS CUMPRAIS. 

Eis a nova reforma, o novo Evangelho de Lutero: a Liberdade evangélica. Ensinava a moral católica não existir liberdade para se praticar o mal; o reformador, porém, pretende mudar tudo e legisla que a liberdade é completa, especialmente para se fazer o que não presta. 

Com efeito, da nova descoberta do falso frade veio um breve à luz um novo escrito “sobre os votos religiosos” .

Tal brochura foi bastante apreciada pelos contemporâneos sinceros: 

“Julgar-se-ia quase que tal livro, cheio de idéias de vingança, foi redigido por um bêbado, ou, antes, por um espírito saído do inferno”. 

João Dietenberger, por seu turno, apreciou-a assim: 

“É um livro repleto de mentiras, de blasfêmias e de insultos” (Grisar I. 398, nota 4).

O certo é que tal panfleto foi uma semente nova a sair em terreno propício, vindo exaltar muitos espíritos perturbado-os e lançando-os na estrada larga da libertinagem. 

Deste modo, a castidade, tão aconselhada por Jesus Cristo, foi abolida pelo pretenso reformador e purificador do cristianismo. 

Que total divergência não se nota entre o divino modelo da pureza, o divino Salvador, proclamando bem-aventurados os puros de coração, e o libertino e gastrônomo de Wittemberg, anatematizando a pureza e declarando felizes os devassos de vida... Que contraste entre ambos!... 

No entanto, é de se pasmar, ao ver tanta gente e, até, nações inteiras abandonarem a crença na Igreja fundada por Cristo, para darem ouvidos às elucubrações de Lutero. 

5. SAÍDA DE WARTBURGO 

Lançara Lutero a semente de revolta que devia medrar em breve. “Quem semeia vento recolhe tempestades”. E estas estavam se armando, anunciando-se ameaçadoras. 

Os insurrectos contra a Igreja Católica pediram a intervenção de Frederico de Saxe, protetor de Lutero, a fim de que desse mão forte à reforma, acabasse com os conventos, entredissesse a Missa e obrigasse o povo a adotar o novo Evangelho luterano.Era a aplicação do princípio: a força precede ao direito. 

O príncipe hesitou e não teve ânimo de lançar-se em tão perigosa empresa. 

Mas o fanatismo é uma verdadeira moléstia de nervos; não raciocina mais, é uma OBSESSÃO que deseja alcançar o fim, custo o que custar. 

Informado de tudo, não pôde mais Lutero aguentar a sua solidão de Wittemberg, para de tudo se informar. Achou o terreno mal preparado e, às ocultas, disfarçado em cavaleiro, regressou ao velho castelo, onde se deu à composição de uma nova brochura intitulada: “Aviso Fiel”, dirigida a todos os cristãos, pedindo-lhes impedissem a revolução que se estava urdindo. 

Era tarde demais. O germe da rebeldia, por ele lançado, estava desabrochando e produziria funestos resultados. 

O pedido de paz não produziu efeito. Lutero seria coagido a reconhecer ser mais fácil pregar a revolta nos pacíficos do que obter a pacificação dos rebelados. 

Wittemberg estava em pé de guerra. 

Carlostadt, que tão triste figura desempenhara em Leipzig, quis substituir Lutero, assumindo também ares de reformador. Pondo-se, então, a aplicar as teorias do mestre, proclamou publicamente que o casamento devia ser prescrito a todos os ministros do Evangelho, enquanto introduzia a Ceia em substituição à missa romana. 

No dia de Natal foi a novidade executada pela primeira vez. Carlostadt celebrou a Ceia na Igreja paroquial com pão e vinho distribuídos a todos os presentes; em janeiro seguinte o novo chefe evangélico entrou solenemente no templo, ao lado da mulher escolhida com quem se casou, conforme a liberdade evangélica. 

Os frades de Wittemberg adotaram logo o regime novo; queimaram os altares e as imagens de santos, introduziram publicamente a reforma e começaram a casar-se, seguindo o exemplo de Carlostadt. 

Parte da população aplaudiu o acontecido, enquanto outra quedou-se horrorizada à vista de tanta sem-vergonhice. 

Os tumultos aumentaram cada vez mais, a ponto de inquietarem o governo, que dirigiu rigorosa queixa aos Bispos e a Frederico de Saxe, dando-lhes ordem de encarcerar e castigar os perturbadores da ordem e da paz religiosa. 

Lutero, que até então observava o movimento, achou azado o momento para se tornar importante. É que se, por uma parte receava ser considerado covarde pelo povo, fugindo, depois de atear o fogo ao mundo e receando as conseqüências do incêndio, por outra, via ameaçada a sua obra reformadora. 

Era, pois, a hora de manifestar-se. Ele logo viu ser impossível aos bispos e às autoridades conter a revolta, generalizada como estava. 

Era preciso fazer qualquer coisa de urgente. Era a sua pretensão. 

A 1º. De março deixou ele o refúgio de Wartburgo, dirigindo-se para Borna, cidade ao sul de Leipzig. Foi daí que escreveu a Frederico de Saxe, implorando-lhe proteção e pondo-se ao seu dispor, na tarefa de pacificação do povo. 

A 6 de março Lutero, disfarçado de Cavaleiro Jorge, entrou Wittemberg, revestiu-se novamente da batina, cortou a barba e no domingo seguinte apareceu na igreja dos agostinianos, para do alto do púlpito começar uma pregação pacificadora. 

Custasse o que custasse, desejava deter a população exaltada e restabelecer a paz. Caso contrário, bem o sabia ele, estaria perdida a sua causa. 

6. FIGIMENTO HIPÓCRITA 

Lutero iria fingir um recuo a fim de agradar ao príncipe Frederico de Saxe e ao governo que o considerava fautor da revolução em marcha. 

O herege não hesitou... Do mesmo modo por que sabia blasfemar e caluniar por ódio, também era hábil em mostrar-se hipócrita e diplomata. 

Pronunciou 8 conferências para declarar a revolução oposta à liberdade evangélica, dizendo-se contristado ao ver o povo precipitar os acontecimentos em vez de se mostrar paciente e calmo. 

“Segui-me”, exclamava então, “eu nunca fui mal sucedido em minhas empresas; aliás, sou o primeiro a quem Deus confiou a missão e o encargo de pregar-vos esta doutrina”. 

A eloqüência popular e entusiasta de Lutero triunfou, e Wittemberg lhe ficou fiel; Carlostadt foi coagido a recuar e a fugir, até que em 1541 a peste pôs fim à sua vida exaltada, na cidade de Bazel. 

Sob a direção de Lutero, a igreja de Wittemberg foi consertada. Decorada como estava antes, e os frades apareceram de novo, revestidos dos paramentos sacros, para presidir e executar os ofícios, enquanto ressoavam hinos litúrgicos. 

Durante a missa a hóstia foi de novo levantada e mostrada ao povo. Exteriormente, nada se alterara ao Santo Sacrifício. Tal organização, porém, não passava de uma dissimulação, arranjada para pacificar os ânimos e completar a reforma. 

Lutero suprimia nas orações da Missa tudo o que lhe imprimia o caráter de Sacrifício, pois não a admitia como sendo a continuação incruenta do Sacrifício do Calvário, considerando-a simplesmente uma lembrança. 

Cochleus, seu auxiliar na heresia, e diversos outros não aceitavam estas cerimônias fictícias, por condenarem uma demonstração tão fingida. 

Respondeu-lhes o reformador que não se devia retirar o Sacramento da Eucaristia, antes de ter sido bem compreendido o PURO EVANGELHO (no sentido luterano). 

A obrigação imposta pela Igreja católica aos seus ministros, segundo a qual devem eles pronunciar em voz sumida lãs palavras do Cânon, facilitou os atos de novo culto, sem que o povo notasse a diferença entre as novas e as antigas cerimônias. 

Lutero pôde falar com toda razão: 

“Graças a Deus, as nossas igrejas, nas coisas neutras, são organizadas de tal maneira, que um leigo, seja francês ou espanhol,s que não entende a nossa prédica, ao ver a nossa, o nosso altar, os nossos paramentos, ao ouvir os nossos órgãos e os nossos sinos, têm de confessar estar assistindo a uma verdadeira missa papal” (W.Erl. l55.300). 

O povo ignorante não notou a diferença entre os dois ritos, nem deu pela reforma, de modo que mais tarde Lutero pôde ufanar de ter realizado o que era quase impossível no começo: abolir a Missa que havia lançado raízes tão profundas no coração dos homens. 

E em tom de júbilo exclamava: 

“Que Deus me deixe morrer de morte natural, e terá iludido os papistas, que não terão podido queimar vivo aquele que deste modo lhes destruiu a Missa” (Coll. Ed. Bindseil, 122). 

Esta subversão total da missa católica, da qual Lutero suprimiu o sacrifício eucarístico, e conservou apenas simples orações, sem significação e sem valor, porque desligadas daquele, depois de ter sido batizada solenemente por Lutero com o nome de “Missa alemã”, foi introduzida em Wittemberg, no ano de 1523. Somente três anos mais tarde foi a língua latina substituída pela alemã. 

7. CONCLUSÃO 

A estadia de Lutero no castelo de Wartburgo é das páginas da história de sua vida a que melhor nos descobre e transmite os sentimentos do espírito turbulento, do estado do coração viciando e da vontade votada ao mal do pobre e infeliz renegado. 

Na exaltação do mundo e na embriaguez do sucesso o homem sensato pode às vezes desviar-se, por falta de reflexão; mas quando se encontra solitário, na placidez do isolamento, uma pessoa sensata reflete, compara e dá pelo mal dos erros cometidos. 

Com Lutero, entretanto, nada disso aconteceu. 

Condenado pela autoridade civil, como perturbador da ordem pública; excomungado pela Igreja, como herege; humilhado nas discussões públicas, onde foi convencido de má fé e de ignorância; exilado da sociedade pelo Governo; recolhido por proteção num castelo solitário, Lutero, após uma breve hesitação permaneceu o mesmo homem =exaltado, rancoroso, teimoso em suas idéias, fanático em sua revolta. 

E, o que é pior, ele juntou aos erros de seu espírito as paixões vergonhosas e excessos de toda sorte. Foi verdadeiramente um infeliz, um decaído, um vulgar comunista, como diríamos hoje. 

E, após dez meses de tal vida, quando era de se esperar estivesse arrependido e transformado, ei-lo reaparecendo em público, não para reparar o mal, mas a fim de encobri-lo um instante por meio da máscara da hipocrisia, debaixo da qual continua a sua obra nefasta de ódio e de destruição. E, então, insulta, vitupera e arrasta até à lama o nome de Deus, atribuindo tudo à influência, diabólica e, ao mesmo tempo nutrindo em si e manifestando a convicção de ser mensageiro do céu para endireitar o mundo. 

Tal contraste não pode nascer bem subsistir num espírito equilibrado, mas somente num anormal e obsesso como ele. 

Esta idéia manifestou-a claramente na carta que escreveu ao seu protetor Frederico de Saxe quando lhe comunicou o seu projeto de deixar Wartburgo, para retornar a Wittemberg. 

“Vossa Alteza talvez não saiba, mas fique sabendo que eu não recebo o Evangelho da mão dos homens, mas unicamente do céu, de N. S. Jesus Cristo, e que, por isso, posso intitular-me, como doravante o farei. Apóstolo e Evangelista” (Correspond. III. 296, 5 de março de 1522). 

Não é para causar admiração tenha Lutero chegado a tal pretensão. 

O orgulho, que desde o começo o caracterizava, e o desequilíbrio da sua mentalidade, diante do sucesso e da popularidade que lhe haviam conquistado o entusiasmo e eloqüência fogosa, devia fazer surgir nele a idéia de ser um ENVIADO DE DEUS. 

Quando se viu ao mesmo tempo aclamado pela multidão e combatido pela autoridade de Igreja, restaram-lhe dois caminhos abertos perante ele: ou retroceder ou revoltar-se; noutros termos: ou reconhecer os erros, ou atribuir-se uma missão divina. 

N último, ele senti que a demasiada soberba não lhe permitia humilhar-se, como não acreditava sinceramente em tal missão. A sugestão do resultado alcançado, dos aplausos recebidos, foi-lhe infiltrando no orgulhosos espírito a possibilidade da empresa, e, enfim, a probabilidade da mesma. 

Lutero passou a ser um joguete dócil nas mãos de Satanás, que dele se servia como de um instrumento, para dividir a Igreja de Cristo e perder as almas, cuja falta de fé as reduzia a frutos apodrecidos da grande árvore católica – EX FRUCTIBUS EORUM COGNOCETIS EOS (Mateus 7, 80) 

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