> > >

quinta-feira, 11 de junho de 2009

DLP-VII



CAPÍTULO VII

SANGUE E LAMA






Muito mais lamentável que os períodos anteriores – pois que todo salpicada de sangue e manchada de lama – é esta nova quadra da existência de Lutero, que vamos percorrer.

Até aqui vimos seguindo, passa a passo, o estado de rev9olta, a decadência do mísero transviado, a princípio nos estreitos limites do convento, depois na universidade, afinal, até em Wartburgo e Wittemberg.

Até agora vimo-lo lançando a semente; verifiquemos agora o resultado da sementeira do mal e das instigações por ele feitas contra a Igreja.

O reformador continuou a sua obra de aparente pacificação, mas sob o disfarce da hipocrisia ia firmando a sua tarefa de destruição e de revolta.

Falecera havia pouco o Papa Leão X, sucedendo-lhe no trono Adriano VI, no governo da Igreja.

O novo sucessor de São Pedro, ansioso de paralisar a situação na Alemanha, pensou logo em reunir um Concílio geral, no ano seguinte, em 1523.

As instâncias de Adriano VI não lograram correspondência, devido a desconfiança geral, conseguindo apenas a promessa – não executada – de entredizerem a Lutero novos ataques e reformas, enquanto não se efetuasse a reunião conciliar.

Estas garantias foram pura falsidade, pois Lutero continuou, sem interrupção, a dirigir seus ataques contra a Igreja e, por outra parte, não veio a efetuar-se a celebração do Concílio, por motivo da morte do Papa em 1523.

O seu sucessor, Clemente VII, abandonou o plano que se tornou irrealizável, devido à guerra entre a França e o Imperador.

É nesta atmosfera de dúvidas, de incertezas, de descrédito, que se inaugura a nova época da vida de Lutero, que passamos a ver.

1. A GUERRA DOS CAMPÔNIOS

Já no decurso dos últimos anos, haviam sido registradas várias sublevações dos camponeses; sendo, porém, movimentos locais foi possível imediatamente reprimi-los.

As insinuações subversivas e os panfletos incendiários de Lutero haviam preparado este movimento revolucionário, generalizando-se o levante em várias províncias da Alemanha.

As pretensões dos sublevados divergiam em seus pormenores.

Os camponeses da Suábia haviam redigido uma proclamação em doze artigo, exigindo para eles o direito de eleger e de depor párocos, difundir publicamente a reforma, obter isenção de vários impostos e exigências partidas do Império.

Outros, dirigidos por Helferich, apresentaram trinta artigos, quase inteiramente colhidos nos livros de Lutero, a ponto de o 18º. Artigo fazer jurar inimizade a todos os que não aderissem ao reformado.

Os camponeses da Renânia exigiram a liberdade para todos os revolucionários detidos pelo governo.

A revolta dos Campônios tornou-se deste modo um movimento social-religioso, cuja orientação estava sujeita às idéias e aos impulsos do mestre, que de tudo se inteirava, pelo seu julgamento e beneplácito.

O apóstata, jogando com a sorte do país, pressentia ser o momento próprio para aproveitar o descontentamento popular e a hesitação dos governantes, a fim de lançar entre eles a discórdia, e atrair para si as forças em luta.

Por isso, procurou agradar aos partidos, censurando os príncipes diante deles, como bem o demonstra a sua correspondência de então.

A revolta começou no verão de 1524s, em Hegau, e pouco depois se alastrava por diversas partes da Alemanha (Suábia, Alsácia, Palatinato, etc.), ficando apenas poupada a Baviera, graças ao tacto e à energia governamental.

Na primavera de 1525, após ter excitado os camponeses, o reformador os exortou à paz, censurando os 12 artigos, porém a sua palavra, continuadamente em contradição, não teve eco, tanto mais que, ao mesmo tempo, acusava os príncipes de intoleráveis exações, sendo isso um novo motivo de exasperação para os ânimos dos rebeldes.

A luta não cessou, pois, e mais de 1.000 castelos e mosteiros foram arrasados, sendo preciso usar de força armada para deter os rebelados. A reação dos príncipes tornou-se então decidida, e aproximadamente 50.000camponeses caíram vítimas da luta, sob as armas dos rebeldes.

Em seu escrito “contra os bandos rapaces de camponeses”, Lutero exortou os príncipes a matarem dos lavradores COMO CÃES DANADOS. O conselho foi seguido em toda a parte, de modo que a sublevação só foi dominada em 1525, após verdadeiros massacres em massa, sem misericórdia e sem julgamento.

A sua opinião, aliás, sobre os habitantes dos campos não tinha caráter mais favorável. Ouçamo-lo:

“Os camponeses não queriam escutar nada; por isso, era preciso abrir-lhes o ouvido com balas de espingarda para que a sua cabeças voassem pelos ares” (Grisar v. Lther vol.l. p.7l5. Ed. 7912).

“Não quero saber nada de misericórdia”, diz ele ainda, “como já escrevi, escrevo ainda: ninguém se deve compadecer dos camponeses teimosos, obcecados, cegos, mas bater neles com cordas, pau e foice, como de faz com cães furiosos.

“Eles são, com certeza, revoltosos, ladrões, assassinos e blasfemadores, de modo que entre eles não há nenhum que não tenha merecedo dez vezes a morte sem compaixão.

“O senhores compreendem o que está atrás desta populaça; o burro quer pau, e este povo quer ser governado pela força...” e o furioso hipócrita conclui indicando o motivo da revolta, “o diabo tem em mira” declara ele, ”destruir a Alemanha inteira, porque não há outro jeito de implantar o Evangelho!”. Faz ainda esta bela apreciação do povo “Os campônios permanecem campônios; faça-se-lhes o que quiser, têm o rosto, o nariz e os olhos tortos” (Schlaginhaufen Leipzig, 1888, p. 125).

Compreende-se que, depois destas mudanças de opinião, os operários perdesse a estima para com aquele que os traiu tão vilmente.

Lutero sentia este desprezo e temia a vingança popular.

Em 1530 não teve coragem de visitar o pai doente e escreveu: “Não quero tentar a Deus, expondo-me ao perigo, pois sabes quanto me desprezaram senhores e camponeses” (Corresp. VII.. 230 a Hans Luther).

2. Lutero e o povo

Após estas cenas, algumas entre elas sangrentas e desumanas, percorramos um instante as cartas e o folhetos de Lutero, para ver de perto a infâmia do pretenso reformador excitando o povo contra a autoridade e a autoridade contra o povo, com o fim previsto.

Num sermão ele sugere o modo como deve ser tratado o povo, nestes gentis termos:

“Porque Deus deu a lei, e ninguém a observa, ele instituiu, como suplemento, os senhores da vara, os condutores e os castigadores. Assim a Escritura, por semelhança, dá a função dos legisladores: eles devem ser como os homens que conduzem mulas; é necessário constantemente subjugá-las e chicoteá-las; de outra forma não caminharão. Assim também os legisladores são para conduzir, bater, sufocar, queimar, degolar e destruir o vulgo” (Erlangen ed. XV. 2 p.276).

O novo evangelho de Lutero apresenta, em mais de um ponto, uma admirável semelhança com velho paganismo romano.

O reformador era pior que Herodes, na sua reflexão sobre os pobres lavradores chacinados na revolução, pelo destino dos quais ele se tornara duas vezes responsável.

Notáveis historiadores protestantes confessam francamente ter ele sido a causa imediata de revolta feita em nome do novo evangelho.

Entretanto, não satisfeito com a derrota dos pobre camponeses, ele estimulou os príncipes à matança. Eis o que, anos depois, o sanguinário reformador teve a coragem de exclamar:




LUTERO INSUFLOU A REVOLTA E
DEPOIS VIROU-SE CONTRA ELA



“Eu, Martinho Lutero, na rebelião, matei todos os burgueses, pois fui eu quem ordenou que eles fossem levados à morte. Todo o seu sangue está sobre a minha cabeça; mas o deixei com Deus, Nosso Senhor, porque ele me ordenou que assim fizesse” (Tischredden Erlangen ed. Vol.69, p.284).

É fácil compreender como Lutero, a quem faltava dignidade e brio, moral e ponderação, chegou a extremos tais.

A princípio ele foi favorável aos príncipes em quem depositava esperança de destruir a Igreja católica, impondo à força a sua reforma ao povo, caso esta não a aceitasse de boa vontade.

Quando se viu frustrado em suas esperanças, voltou-se para o povo, pensando que o mesmo efeito poderia ser produzido por um movimento popular.

Este final, porém, foi desastroso e teve com conseqüência a revolta dos lavradores.

Não foi a carnificina e a destruição que o fizeram virar contra o povo, mas a vingança, por não querer aceitar o seu novo Evangelho, como ele o entendia. O povo revoltado preferia seguir o EXEMPLO de Lutero, e não os seus CONSELHO, e queria interpretar por si mesmo as escrituras como o reformador fazia.

É o que causava indignação ao apóstata. Era heresia contra heresia, era o cisma em sua própria doutrina. E isso ele o considerava um crime de morte.

Os príncipes luteranos se viam também agora em perigo. Que seria então da reforma, se o povo os vencesse?

Lutero ficou frenético de raiva e, voltando-se contra a sua própria classe, pôs todo o seu poder ao lado dos príncipes. Em termos de uma violência diabólica, ele pediu a todos que “abatessem, apunhalassem e matassem os camponeses, publicamente, secretamente e de qualquer modo, como cães danados” (Hussein: O que Lutero ensinou).

3. LUTERO E A AUTORIDADE

Já conhecemos fartamente suas teorias sobre o poder religioso e civil.

Citemos apenas uns curtos trechos de seus escritos a este respeito. Eis palavras suas:

“Seria melhor que todos os Bispos fossem mortos, todas as fundações e mosteiros demolidos radicalmente, de preferência à morte de um só crente.. A coisa mais conveniente que lhes podia suceder seria uma poderosa revolução que os varresse da face da terra. E seria somente objeto de alegria, um tal acontecimento” (Weimar ed. Vol.X 2 p.3).

E o revoltoso em linguagem cada vez mais furiosa continua:

“Todos aqueles que ajudarem e arriscarem a sua vida, bens e honra, para destruir os bispados e extirpar o regime dos bispos, serão os filhos querido de Deus e verdadeiros cristãos, enquanto os homens que os suportam serão os próprios escravos do demônio” (Weimar p.140)

Não podiam os camponeses interpretar tais palavras senão como uma declaração de GUERRA SNATA e, assim, de fato, as entenderam.

Palavras de paciência eram ditas por Lutero, somente, para serem retratadas no dia seguinte com uma tempestade de invectivas...

Do mesmo modo as autoridades civis era denunciadas como ‘PIORES O QUE LADRÕES E VELHACOS” .

“um saco de vermes” – era como intitulava o imperador, enquanto declarava abolida toda a autoridade contrário ao seu Evangelho, oposta às suas heréticas idéias.

4. CASTIDADE E CASAMENTO

Acabamos de ver a ação exterior de Lutero: é um homem sanguinário.

O que vimos é apenas uma das facetas de sua pessoa.

Lembremos-nos do que ele era no interior, julgando-o, pelo suas próprias palavras, crapuloso, entregue aos prazeres da mesa e da voluptuosidade, como atrás já se disse.

Havia anos que o reformador, em nome de liberdade evangélica, entrara no caminho da libertinagem, abolindo os votos religiosos e convidando monges e monjas a abandonarem os seus conventos, a renegarem os seus votos, especialmente o de castidade, PALAVRA SEM SENTIDO e aspirações sem realidade para o reformador.

Afinal começou a exaltar o matrimônio e a fazer acreditar que a Igreja Católica considera como pecados mortais todas as palavras e ações das pessoas casadas.

Nenhum católico jamais acreditou nesta absurda doutrina, pois em parte alguma a vida conjugal é considerada tão altamente e tida como tão santoa e sagrada, como na Igreja Católica.

Apreciando a castidade do estado virginal, como sendo mais excelente e espiritualmente mais desejável do que a vida matrimonial, a Igreja não rebaixa a esta última, mas apenas repete os ensinamentos positivos de Jesus Cristo de de São Paulo:

“Todo aquele que tiver deixado... mulher... por amor de meu nome, receberá o cêntuplo neste mundo e a vida eterna (São Mateus, 19,29).

“Quem dá a sua filha em casamento faz bem; mas quem não a dá faz melhor! (1 Cor. 7, 38).

Vejamos aqui a tríplice mudança que Lutero introduziu no matrimônio. EM PRIMEIRO LUGAR, LNA Igreja o Matrimônio é uma SACRAMENTO. Lutero tirou-lhe o seu caráter sacramental, secularizando-o inteiramente...

Para ele, casar é uma coisa externa, necessariamente, tanto quanto o comer, o beber e o dormir (Erlangen XVI. P.519). Por isso, o reformador tira esta bela conclusão:

“Como eu posso comer, beber, dormir, passear, cavalgar, negociar e tratar com um pagão, judeu, turco e herético, assim também posso casar e permanecer como casado” (Erlangen p.205).

EM SEGUNDO LUGAR, Lutero, e não a Igreja, é quem ensinou que o matrimônio era inevitavelmente pecado. Eis a curiosa expressão dele:

“A obrigação matrimonial nunca é desempenhada sem pecado” (Weimar vol. XX. 2 p.304)

Este pecado, que ele atribui aos casados, é descrito por ele como

“...não diferindo em nada, por sua natureza, do adultério e da fornicação” (Ibd. Vol. VIII p. 304). Para completar o absurdo da sua doutrina, ele acrescenta que o pecado necessariamente cometido pelos casados, nada vale perante a misericórdia de Deus, “Visto ser impossível evitá-lo, embora sejamos obrigados a abstermos dele” (Ibid. p.654).

Parece loquacidade de um bêbado, de um louco a falar sem lógica e sem saber o que diz.

Imaginem: ¨UM PECADO – QUE NÃO SE PODE EVITAR – mas que é, entretanto, proibido!... Só mesmo Lutero para imaginar três contradições tão ridículas e vergonhosas.

EM TERCEIRO LUGAR, Lutero considera o casamento como uma rigorosa obrigação, apoiando-se erradamente sobre a bênção de Deus, no paraíso, que ele interpreta como lei universal:

CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS,

Palavras dirigidas, por certo, a homens irracionais, mas não como um ORDEM a todo indivíduo em particular e, sim à espécie humana que, pela fecundidade e expansão, devia propagar-se e encher a terra.

Deste modo Lutero criou um novo mandamento, colocando-se em oposição às palavras de N.Senhor e de S. Paulo já citados, que recomendam altamente a virgindade, mas não impõem este estado como preceito.

Numa carta ao Arcebispo Alberto, em 2 de junho de 1525, ele explica assim a sua lei, até então desconhecida:

“É uma coisa terrível para um homem achar-se sem mulher na hora da morte. Ele deve ter ao menos a intenção e a resolução de se casar”.

Que horror! Que há de fazer um moribundo? Só se casando na outra vida, apesar da palavra do mestre: “NA RESSURREIÇÃO, NEM OS HOMENS TLERÃO MULHERELS, NEM AS MULHERES TERÃO MARIDOS; MAS SERÃO COMO OS ANJOS DE DEUS NO LLCÉU” (Mateus 22,30).

Lutero continua:

“Que resposta dará ele ao Altíssimo Deus, quando este perguntar: “Eu te fiz homem, não para estares só, mas teres mulher. Onde está a tua mulher?”

Eis Lutero reformando a S. Paulo, que disse: “É BOM QUE O HOMEM NÃO TOME MULHER” (1Cor. 7,1).

Ele continua descaradamente a expor suas opiniões casamenteiras, infringindo doas as leis do pudor:

“A palavra de Deus e a sua obra são evidentes: a mulher deve ser usada para o matrimônio ou para a luxúria” (Erlangen. Vol. 61, pág. 6)

5. O FEMINISMO DE LUTERO

Eis aqui a lei de Lutero:

“Todo o homem deve ter a sua mulher e toda mulher deve ter o seu marido” (Weimar. Vol.20 pág.276)

Ele admite umas exceções, mas estas são feitas por Deus e são ADMIRÁVEIS e ninguém pode pretender a um tal milagre.

Quereis agora saber como Lutero, o reformador enviado pro Deus, no conceito protestante, considera a mulher? Lede o seguinte tópico de uma das suas cartas:

“O corpo das mulheres não é forte, e a sua alma é ainda mais fraca, no sentido comum. Assim lê um assunto sem importância que o Senhor coloque uma selvagem ou civilizada ao nosso lado. A mulher lê meio criança. Aquele que toma uma mulher deveria considerar-se como o guarda de uma criança... ela é semelhante a um ANIMAL CAPRICHOSO (ein tolles tier). Reconhecei a sua fraqueza. Se nem sempre passeia por caminhos direitos, guiai a sua fraqueza. Uma mulher permanece eternamente mulher” (Weimar – Vol. XV. ´. 420).

Eis uma pequena amostra de suas idéias neste assunto.

Muitas outras passagens há em seus escritos, porém vergonhosas demais, paras serem citadas em público.

É conhecida a licença dada por Lutero ao Landgrave de Hesse, para ter duas mulheres ao mesmo tempo.

O reformador dá-lhe a licença pedida, exigindo segredo, porque, diz ele, “... a seita protestante é pobre e miserável, e precisa de justos legisladores” (De Wette vol. V – pg. 237).

O direito de possuir muitas mulheres era abertamente pregado por Lutero:

“Não é proibido ter o homem mais de uma mulher. Hoje eu não poderia proibir isto” (Erlangen vol. 33 – pág. 324).

“Confesso”, diz ele ainda, “que se um homem deseja casar com muitas mulheres, eu não posso proibir isto, pois não é oposto à S. Escritura” (Ego sane fateor me non posse prohibere, si quis plures uxores velit ducere, nec repugnat sacris litteris) – (De Wette vol. II p. 459).

Com tais princípios a porta da poligamia estava escancarada e cada qual, transpondo-a, podia trilhar o caminho da animalidade.

O Landgrave de Hesse o compreendeu muito bem e melhor ainda o aplicou:

“Se é justo em consciência perante Deus”, disse ele, “que me importa o mundo amaldiçoado?”.

O adultério, com o consentimento do marido, é também expressamente sancionado pelo reformador, quando do casamento não resultar família.

A criança, assim gerada, diz ele, deve atribuir-se ao marido legal (Weimar vol II. P. 558).

Conservar uma amásia também é fortemente recomendado àqueles que por votos se devem conformar com a lei do celibato.

O moralista da lama escreve sobre os transgressores das leis matrimoniais:

“Deixemos que casem secretamente com a sua cozinheira” (Landerbach: Tagebuch, p. 198)

Aos membros da Ordem Teutônica (cavaleiros seculares) a quem era imposto o celibato pela lei da cavalaria daquele tempo, e que pensavem pedir dispensa desta ao Concílio (o que lhes era permitido, pois eram seculares), ele escreveu assim:

“Eu preferia confiar na graça de Deus com relação àquele que tem duas ou três concubinas a confiar em quem possui uma esposa legal com o consentimento do Concílio” (Weimar. Vol. XII p.237)

Quando ao que o apóstata diz da esposa que recusas a sua obrigação, lê vergonhoso citar as palavras do inflame moralista. Ele escreve:

“Se a mulher não quiser, deixemos vir a criada. O marido tem somente que deixar ir Vasti e tomar uma Ester, como o rei Assuero” (Ibid. Vol. X. p.290)

“E se a esposa reclamar, o marido deve responder à admoestação: Vá para o diabo” (Ibid. vol III. P. 222).
Passagens tais são abundantes nos escritos do reformador.
Apesar de bastante repelentes, convinha citar estas, para mostrar a verdadeira fisionomia do libertino Lutero, o homem que os protestantes dizem divinamente apontado por Deus para a missão de reformar a Igreja Católica.
Às vezes, de acordo com as necessidades, Lutero tem passagens diametralmente opostas a estas aqui mencionadas; é o resto das sua herança católica. O que está aqui expresso é dele e só dele; é a sua doutrina reformada – é o seu evangelho.
Poderá uma senhora protestante simpatizar com este seu fundador e modelo que trata tão mal e desrespeitada de modo tão claro a fama e o pudor da mulher?...
É simplesmente infamante e horrendo, baixo e vil o conceito de Lutero sobre as mulheres que garante serem todas impuras e pecaminosas (Erleangen vol. II pág. 66).
Pobres protestantes, é para cobrirdes o rosto de pejo, diante de um tal pai...
Suponho que não sois bons protestantes, porquanto, se o fosseis, seguiríeis o exemplo de vosso pai... e não acredito que o façais.
Prefiro supor-vos maus protestantes, para vos poder considerar bons cristãos... homens de fé e pessoas de moral.

6. RAPTORES E RAPTADAS
As idéias do “reformador” sobre o matrimônio nos revelam a podridão moral dele e da sociedade de então em plena decadência e sem freio moral.
Numa atividade furibunda, febril, parecendo excitada pelo próprio demônio, Lutero multiplica pasquins dirigidos a todos, seculares e religiosos, homens e mulheres sem exceção. Leram-nos uns por curiosidade, atraídos pelo tom inflamado do estilo e, outros, por perversidade, a fim de com os maus levar avante a infernal reforma.
Até mesmo nos conventos as doutrinas perversas penetraram.
Lutero considerava a castidade como um milagre conforme escreveu ao prior de Lichtemberg:
“Os votos religiosos”, escreve ele, “são nulos, pois exigem o impossível. A castidade não está em nosso poder, como não está a faculdade de fazer milagres. O homem não pode vencer a inclinação natural ao casamento. Quem quiser ficar solteiro deve depor o título de homem e provar que é um anjo ou um espírito, pois Deus não concede isto a um homem”.
O pobre prior, que por fraqueza sentia imenso desejo de depor o jugo divino, seguiu o conselho de Lutero e afinal se casou.
Tais doutrinas atraíram certas monjas ou falsas freiras que haviam abraçado a vida claustral, sem vocação, por interesse ou por desgosto do mundo, achando elas na doutrina do falso frade um meio de se libertarem de um fardo que não podiam suportar, pois haviam abraçado a vida claustral sem vocação, por interesse ou por desgosto.
Havia em Nimbschen, perto de Grimnia, um convento de Cistercienses, onde imprudentemente as superiores haviam admitido moças mundanas, que ali procuravam antes salientar-se do que santificar-se.
Uma dentre elas entraram em entendimento com Lutero, que as aconselhou a deixarem o convento e a se reunirem perto dele a fim de se casarem.
O reformador organizou um rapto, que confiou a seu amigo Leonardo Koppe, mestre na arte.
Na quarta-feira Santa de 1523, com 16 companheiros, já invadira ele o convento dos franciscanos de Torgan, lançando por cima do muro os religiosos que se haviam oposto e arrancando portas e janelas, porque os franciscanos não aceitaram a reforma, nem a liberdade proposta.
Koppe, sob as ordens de Lutero, preparou para as monjas de Nimbschen uma fuga dramática.
No sábado de Aleluia entrou no convento com um carro coberto, cheio de mercadorias, para a provisão das religiosas.
As monjas rebeldes ficaram de sobreaviso e tomaram as suas providências.
Enquanto descarregavam a carga, 12 monjas sorrateiramente ocupara o caminhão vago, sem que o resto da comunidade desse pela evasão das luteranizadas, que seguiram para Wittemberg, onde foram acolhidas por várias famílias protestantes.
Lutero intitulou Koppe de “Bem-aventurado ladrão! E o comparou ao Cristo que também, tal um vencedor sublime, havia arrancado o seu reino das garras do príncipe do mundo. O pastor Amsdorf ofereceu logo uma das fugitivas em casamento ao vigário apóstata, dizendo como se se tratasse de coisa qualquer:
“Se quiseres uma mais nova, podes escolher entre as mais belas” (Kolde Analecta Lutherana, p. 443)
O que nos dizem os contemporâneos sobre a moralidade destas infelizes egressas às quais se havia pregado a inutilidade das boas obras e a irrestibilidade da concupiscência, é realmente doloroso e humilhante (Leonel Franca: Lutero e o Sr. Fr. Hansen).
Melanchton, referindo-se às relações de Lutero com estas infelizes decaídas, deplorava a sua influência amolecedora, por se capaz de baquear os caracteres de mais rígida têmpera.
Outro luterano, Eoban Esse, afirmava em 1523 que tais apóstatas não se deixavam vencer, em lascívia, por nenhuma cortesã (Nulla Phylles nonnis est nostri mammosior –Epíst. Fam. Morpugi p.87)

7. CATARINA DE BORA

Entre as egressas, saído do convento por influência de Lutero, se achava Catarina de Bora.

“Sem ser uma beldade, diz Grisar, Catarina ambicionava esposar Lutero ou Amsdorf”. Para ilaquear o seu preferido, multiplicou as armadilhas da astúcia feminina.
Pelas referências contemporâneas, os precedentes de Catarina não recomendavam muito sua moralidade.

Khatarina von Bora
A 10 de agosto de 1528, Joaquim de Heyden escrevia à própria Catarina, recriminando-lhe o haver entrado em Wittemberg, como uma bailarina, e de aí ter vivido com Lutero, antes do casamento, como uma miserável decaída (Enders Vol. VI p.334).
Em 1523 já estivera em relações amorosas com Jerônimo Baumgastner, que mais tarde (1529) se casou com outra.


No mesmo ano (1523) Cristiano [II], rei da Dinamarca, desterrado, passou por Wittemberg e aí conheceu Catarina, que deste encontro conservou como lembrança significativa o presente de um anel (Koestlin: Luter I. p.728).

Eis os predicado de tal “nobre senhora, digna de todo respeito, pelos seus dotes de espírito e de coração” tal como os protestantes o pretendem.

Vê-se logo, pelos fatos, que Catarina era uma criatura viciada, namoradeira, à cata de casamento, pouco diferindo de uma mulher perdida.
Lutero se deixou “fisgar” por ela. É a palavra de Melanchton.


Qual teria sido a vida e quais as relações de Lutero e de Catarina, antes do casamento?


Pelo que vimos atrás descrito sobre a sua vida e os excessos praticados em Wittemberg, é difícil conjeturá-lo, se bem que a história não o relate, pois são coisas que não se descrevem e que o pouco de vergonha nele ainda existente o impedia divulgar.


Escrevendo a Ruthel, conselheiro de Mansfeld, o reformador disse:
“Se puder, a despeito do demônio, ainda hei de casar com Catarina” (De Wette II. p. 655).
Todas as suas liberdades com ela transpareciam em público e davam pasto às murmurações e comentários desfavoráveis. O apóstata resolveu por termo a todos os boatos, pela realidade do fato.
No sermão sobre o matrimônio Lutero havia dito:
“Do mesmo modo que não está em meu poder deixar de ser homem, assim também não posso viver sem mulher, e isto me é mais preciso que o comer e beber”
Considerando uma necessidade, o reformador quis satisfazê-la, e decidiu tomar por companheira a “sua” Catarina, ex-monja Cisterciense.

8. O “CASAMENTO” DO LUTERO

Lutero seguiu de maneira apressada os conselhos que dava aos outros.
Examinando de perto a história, nota-se claramente que não se tinha casado logo, depois de sair do convento, por medo de desagradar ao seu protetor Frederico de Saxe que manifestara várias vezes repulsa por estas “uniões de ex-monjas com ex-monges”.

Em 5 de maio de 1525 Frederico faleceu... e em 13 de junho ecoou no mundo reformado, como uma novidade inesperada, a notícia do casamento do ex-monge de Wittemberg, “o enviado de Deus, para restabelecer a pureza do Evangelho e da moralidade”...

O concubinato de Lutero foi, para Melanchton, um verdadeiro estampido de raio, tal o escândalo que lhe causou: os outros discípulos do chefe riram-se a valer.
Para o mundo era uma novidade; para Lutero e Catarina era coisa velha...

Na noite de 13 de junho foram realizadas, na casa de Lutero, as formalidades de tal concubinato, pelo pastor, ex-vigário de Wittemberg: Johan Bugenlagen. Poucas testemunhas foram admitidas. Somente puderam entrar Justus Jonas, o pintor Lucas Cranach e esposa, e o professor Dr. Apel. A festa exterior ficou marcada para os primeiros dias de julho.

Eis Lutero e Catarina, ambos ligados pelos votos de castidade, feitos sacrílegos das suas promessas, não podendo casar-se, mas entrando solenemente numa vida de concubinato que duraria até a morte.
Eis as sete principais razões que próprio Lutero aduziu para justificar a sua aliança sacrílega:

1) – Fechar a boca dos que o acusavam de relações ilícitas com Catarina;
2) – Compadecer-se da pobre monja abandonada;
3) – Envergonhar os católicos que pretendiam que o casamento seja antievangélico (segundo Lutero);
4) – Seguir o conselho de seu pai, que chamou os seus votos um obra do demônio;
5) – Costurar a boca de seus amigos, que zombavam de seu plano de casar-se;
6) – Resistir ao ódio do demônio, em conseqüência da guerra dos camponeses, pois estes estavam furiosos contra Lutero, devido às suas atitudes hipócritas;
7) - Podemos juntar a isto a expectativa de Lutero segundo o qual brevemente o mundo haveria de acabar, e Deus o encontraria assim casado.

Temos, deste modo, diante de nós um curioso fenômeno psicológico: um candidato à morte e ao casamento.
Eis o que ele escreveu após o concubinato:

“Com este casamento, eu me fiz tão covarde e desprezível; espero que os amigo há de rir, e que os diabos hão de chorar. O mundo, com os seus sábios, não reconhece ainda a fervorosa e santa obra de Deus e só para mim a consideram uma obra ímpia e diabólica”.

O amigo de Lutero, Jerônimo Schurf, havia declarado pouco antes do amacebamento:

“Se este monge tomar mulher, o mundo inteiro e até o diabo darão gargalhadas” (Annales Evangelii I. p.274).

Erasmo ridicularizou assim o reformador:

“Outros terminam tragédias com casamento; aqui é um drama que assim finda... Entre os cômicos o barulho acaba igualmente pelo casório, e tudo fica em paz... Entre os protestantes acontece o mesmo... Lutero deu o exemplo... Ele se torna agora mais calmo e não se exalta mais tanto na pena. Ninguém é tão bravo que a esposa não possa acalmá-lo” (Op. Lugd. Batav. 1703, III Coll. 900 Dec. 1515).

A 13 de maio de 1526, Erasmo teve de dizer o contrário da última frase, declarando estar Lutero mais furibundo do que antes.
Eis como terminavam as façanhas de Lutero e onde terminam as farsas de todos os seus imitadores: os renegados e apóstatas. Todos eles podem repetir a frase de seu pai: carnis meae indomitae uror magnis ignibus, eis que deixei, em troca de uma mulher, a minha dignidade, a minha fé, e vendi a minha alma.
É a história a repetir-se sempre: a mesma corrupção e idêntico remédio.
Quando um infeliz sacerdote, roído no íntimo pelo cancro da impureza, lança ao mundo o seu EUREKA: “Achei a luz... ” e publica o seu panfleto “Porque deixei a Igreja Romana”, basta apenas examinar-se atrás da cortina: ali estará oculta a “sua” Catarina.
São apóstatas, porque são libertinos.
Deixam a Igreja que exige a castidade de seus ministros, porque em suas almas entrou o vício da devassidão.
São frutos que caem, por estarem apodrecidos por dentro. São capim inútil, ervas daninhas, que, segundo as expressão protestante de Klaus Harm, foram relegadas, porque, “quando o Papa limpa os seus domínio, joga o que não presta no arraial protestante”.
9. CONCLUSÃO
É tempo de cessarmos a exposição de uma cena tão triste, mais parecida com um quadro de romance imaginário, que com um episodio da vida real.
Tudo o que os adeptos do “pai” do protestantismo escreveram sobre os predicados morais do “grande homem”, não passa de invencionice. Elemento mais perdido e baixo é impossível aparecer. A pequena amostra acima é o suficiente para demonstrá-lo. E note-se bem nada ter sido aqui inventado, mas baseia-se tudo nos escritos do próprio reformador e de seus contemporâneos que, de certo, não aumentaram, mas restringiram o mais possível o lado vergonhoso dos fatos. Seria este crapuloso homem aquele que Deus destinara para reformador da Igreja Católica?
O verdadeiro retrato de Lutero, o único que a posteridade pode admitir, é o que a nós foi transmitido pela história real e genuína dos fatos.
À vista de tais delitos e baixezas, bem podemos repetir a palavra do divino Mestre: “EX FRUCTIBUS EORUM CONGOSCETIS ILLOS: Pelos seus frutos os conhecereis.
Vimos de perto os frutos da reforma: são tristíssimos, mas são dignos rebentos da árvore que Lutero plantou com sua triste rebelião e o exemplo de sua mais deplorável vida.


Índice do Livro
Capítulo VIII

Nenhum comentário: